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Despedidas são feitas de memória

Esta é a última vez que votarei em Lula.

E nesta quinta-feira, às 19h, na Praça Deodoro, em Maceió, estarei diante dele. Separada por um mar de gente, que carregam sentimentos diferentes: alguns de esperança, outros de gratidão, outros de crítica, eu levarei comigo algo mais difícil de explicar: a sensação de despedida.

Desde 1989, atravesso as eleições brasileiras com Lula como referência. Algumas vezes no primeiro turno. Outras, apenas no segundo. Foram quase quatro décadas acompanhando o homem, o partido, as derrotas, as vitórias, as contradições e, sobretudo, a transformação de um sonho.

Naquele começo, havia em nós a expectativa de uma revolução.

Com o tempo, veio a política real. Vieram as alianças, os limites institucionais, as concessões, as contradições e a percepção de que o projeto do Partido dos Trabalhadores não era — e talvez nunca tenha sido — a ruptura profunda que muitos de nós imaginávamos.

E Lula também mudou.

Ou talvez tenha simplesmente revelado, ao longo do caminho, os limites do que estava disposto a fazer.

Essa constatação não apaga o que foi realizado.

Ao contrário: obriga-me a olhar para a história com mais honestidade.

Porque seria injusto dizer que nada mudou.

O Brasil que Lula encontrou e o Brasil que deixa não são exatamente o mesmo país.

O salário mínimo passou a ser tratado como instrumento de distribuição de renda. Programas de transferência de renda alcançaram milhões de famílias. Universidades e institutos federais chegaram a regiões que durante décadas ficaram distantes do ensino superior público. O Minha Casa, Minha Vida recolocou a habitação popular no centro da política pública. O SUS voltou a receber políticas de expansão e provimento de profissionais — o Mais Médicos, por exemplo, chegou a 27,4 mil médicos em 2025, quase o dobro do número registrado em 2022.

A agricultura familiar também passou a ocupar novamente um lugar importante nas compras públicas. Estudos do Ipea apontaram que o fornecimento ao Programa de Aquisição de Alimentos elevou a renda dos agricultores entre 19% e 39%, enquanto a venda para o PNAE produziu efeitos de 23% a 106%, dependendo do perfil do produtor.

Não é pouca coisa.

O PIB brasileiro cresceu 2,3% em 2025 e chegou a R$ 12,7 trilhões. O PIB per capita avançou 1,9% em termos reais. O consumo das famílias cresceu 1,3%, enquanto as exportações de bens e serviços aumentaram 6,2%.

No mercado de trabalho, os números são ainda mais eloquentes. A taxa de desemprego no Brasil ficou em 5,3% nos três meses até julho deste ano. Já a população desocupada caiu 8,0% na comparação com o trimestre encerrado em abril, para 5,8 milhões de pessoas. Em relação ao mesmo período de 2025, houve recuo de 4,9%. A população ocupada, por sua vez, chegou a 103,3 milhões de pessoas, o maior contingente da série histórica.

No comércio exterior, o Brasil também ampliou sua presença. As exportações alcançaram cerca de US$ 348 bilhões em 2025, novo recorde. Entre 2023 e 2025, foram abertos centenas de novos mercados para produtos brasileiros; o Ministério da Agricultura contabilizou 507 novos mercados para o agronegócio desde o início da atual gestão.

As reservas internacionais também permanecem como uma espécie de colchão de segurança externa. Alcançaram US$ 372,6 bilhões em agosto de 2026. Não houve uma trajetória linear de crescimento — e seria desonesto afirmar o contrário —, mas o país continua dispondo de um estoque expressivo de ativos externos para enfrentar choques cambiais e externos.

E há aquilo que nenhum gráfico consegue traduzir completamente.

A fome.

Em 2022, o Brasil tinha cerca de 33 milhões de pessoas em situação de fome. Em 2025, a FAO confirmou novamente a saída do país do Mapa da Fome, considerando a média de 2022 a 2024 abaixo do limite de 2,5% da população em risco de subnutrição.

Há ainda uma dimensão que para mim é simbólica: o Brasil voltou a falar de escola, universidade, ciência, moradia, comida, renda, agricultura familiar, SUS.

Voltou a falar de direitos.

Mas é justamente por reconhecer tudo isso que minha crítica se torna maior.

Porque eu continuo acreditando que era possível fazer mais.

Muito mais.

O PT conseguiu administrar parte importante das desigualdades brasileiras, mas não conseguiu superar as estruturas que produzem essas desigualdades. Lula ampliou o acesso ao orçamento público para parcelas enormes da população, mas não rompeu com uma lógica econômica e política que continua concentrando poder e riqueza.

É essa distância entre o que foi possível fazer e aquilo que eu imaginava que poderia ter sido feito que explica meu voto crítico.

Não é um voto de paixão.

Também não é um voto de desencanto.

É um voto de memória.

Eu me lembro do Brasil da fome. Lembro do Brasil em que universidade pública parecia um território reservado a poucos. Lembro de quando falar em política social era quase pedir desculpas. Lembro de quando o trabalhador precisava escolher entre comer e pagar uma conta.

E também lembro das esperanças que não se realizaram.

Por isso, minha relação com Lula hoje é feita de duas palavras que podem parecer incompatíveis, mas não são: reconhecimento e cobrança.

Reconheço o que foi feito.

Cobro o que não foi.

Reconheço os avanços.

Cobro os limites.

Reconheço que outros governos não teriam feito o que foi feito.

É por isso que chego a esta quinta-feira diante de Lula carregando quase quatro décadas de história.

É a última vez que votarei nele.

Mas não quero que esse voto seja interpretado como absolvição nem como condenação.

É apenas o voto possível de quem envelheceu junto com uma esperança e aprendeu que política não é feita apenas de sonhos — mas também de escolhas, circunstâncias, correlações de forças e limites.

Hoje são a regulação das redes sociais e da inteligência artificial e a soberania brasileira que ocupam grande parte das minhas preocupações.

Um país que deseja decidir seu próprio destino precisa ter instituições democráticas, capacidade econômica, relações internacionais diversificadas, produção nacional, reservas, ciência, tecnologia e liberdade para escolher seus caminhos sem aceitar que outra potência dite suas decisões.

E talvez seja justamente por isso que, depois de tantos anos, eu esteja novamente diante de Lula.

Não porque tenha deixado de enxergar suas limitações.

Mas porque, neste momento da história, elas não me fazem esquecer a dimensão daquilo que está em jogo.

Chegarei à Praça Deodoro sabendo que esta é a última vez.

Sem a ilusão revolucionária de 1989.

Sem a ingenuidade de quem acreditava que um partido poderia, sozinho, transformar profundamente o Brasil.

Mas também sem apagar a memória de tudo o que aconteceu.

Porque despedidas não são feitas de silêncio.

São feitas de memória.

E esta é a minha:

quase quarenta anos depois do primeiro voto, ainda crítica, ainda exigente, ainda querendo mais do Brasil — mas consciente de que não poderia ter escolhido diferente diante das circunstâncias que o país atravessa.

Talvez seja essa a forma mais honesta de encerrar uma longa história: não com paixão cega, nem com arrependimento.

Mas com a consciência de que votar também é lembrar.

Lúcia Barbosa é mestra em Gestão Pública, autora do livro ‘ELEIÇÕES NO BRASIL/2010: uma análise dos manifestos em defesa da democracia’

*Este texto reflete a visão pessoal da autora

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