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O que a repetição de padrões amorosos tóxicos revela sobre nós

Por Severino Angelino – Psicanalista

Você jurou que dessa vez seria diferente. Não foi.

Trocou o nome. Trocou o rosto. Trocou até a cidade. Mas o roteiro, esse, levou na mala.

Talvez você já tenha vivido isso. Talvez esteja vivendo agora, e ainda não tenha percebido.

Escolhemos parceiros com uma precisão cirúrgica para reencenar a mesma ferida, como se o inconsciente tivesse memória fotográfica para o que nos fez sofrer, e amnésia total para o que já nos avisou que doeria.

Freud deu nome à isso: compulsão à repetição. A ideia é simples e perturbadora: aquilo que não conseguimos elaborar, somos condenados a repetir. Não porque gostemos de sofrer. Mas porque uma parte de nós ainda tenta, desesperadamente, escrever um final diferente para uma história antiga. Trocamos os atores. Insistimos na mesma peça.

A psicanálise nos ensina que não existe repetição por acaso. Todo padrão que insiste em voltar carrega uma pergunta não respondida, uma cena que ficou aberta em algum lugar do passado e que o psiquismo tenta, à força, fechar no presente. Não é fraqueza, nem falta de sorte no amor. É o inconsciente cobrando uma dívida antiga e cobrando dela quem menos tem culpa: o parceiro de agora.

Porque o familiar é mais confortável do que o saudável.

Um vínculo instável, imprevisível, cheio de idas e vindas, pode reproduzir com assustadora fidelidade o clima emocional de uma infância marcada por ausência, negligência ou amor condicional. E o inconsciente não busca felicidade. Busca reconhecimento. Prefere o caos conhecido ao equilíbrio estranho.

Por isso tanta gente confunde intensidade com amor. Ciúme com cuidado. Ausência com mistério. Instabilidade com paixão. Porque foi isso que, lá atrás, aprendeu a chamar de vínculo.

A pergunta que ninguém quer fazer

Não é “por que ele(a) fez isso comigo de novo?

“É: “o que em mim reconhece isso como lar?

Essa pergunta incomoda porque tira a vítima do centro da história sem tirar dela a dor — e coloca no centro algo mais difícil de encarar: responsabilidade psíquica. Não culpa. Responsabilidade. A diferença é enorme. Culpa paralisa. Responsabilidade liberta, porque devolve a você o único lugar de onde a mudança é possível: a sua própria história.

Reconhecer um padrão não é se acusar. É deixar de ser espectador da própria vida, repetindo o mesmo filme em salas diferentes.

Quem decide sair desse ciclo enfrenta algo que poucos nomeiam: o luto da fantasia.

Escolher o vínculo saudável, muitas vezes, dá a sensação estranha de tédio, de vazio “cadê a emoção?”. É o corpo estranhando a ausência do caos que aprendeu a chamar de amor. Isso não é regressão. É a primeira vez que você sente paz. E paz, para quem nunca teve, também assusta.

A repetição não é destino. É linguagem. É o inconsciente tentando, à sua maneira torta, contar uma história que ainda não foi ouvida. E toda história, quando finalmente é escutada em análise, em terapia, em um processo sério de autoconhecimento perde a força de se repetir.

Você não está fadado a amar sempre do mesmo jeito quebrado.

Mas para amar diferente, primeiro é preciso ter a coragem de perguntar: de quem, na verdade, você anda com saudade, quando diz que está apaixonado?

Severino Angelino é Psicanalista, Bel. em Direito, Escritor e Graduando em Fonoaudiologia. Autor de ‘O Abismo Invisível: Depressão’ – Um olhar sobre a depressão na adolescência e a importância do apoio familiar.

*Este texto reflete a visão pessoal do autor.

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