Por Severino Angelino – Psicanalista
A psicanálise mostra que o ódio não nasce da política, mas encontra nela um caminho fácil de escoamento.
Toda campanha eleitoral traz, junto com os jingles e os santinhos, uma emoção que ninguém coloca no plano de governo. O ódio. Antes de discutir de onde ele vem, vale fazer a pergunta que quase nunca aparece nos debates: a quem ele serve?
Freud escreveu em 1921 um texto pequeno e incômodo, Psicologia das massas e análise do eu. A pergunta dele era simples: o que faz um monte de indivíduos, cada um com seu juízo, virar um grupo que pensa igual e sente igual? A resposta não é agradável. As pessoas se unem por um laço afetivo com o líder, que ocupa o lugar do ideal do eu de cada uma, e por uma identificação entre elas. Quando isso acontece, a consciência individual afrouxa. O que o sujeito não faria sozinho, ele faz em grupo, e ainda sente orgulho.
Em época de eleição, eu vejo esse mecanismo funcionando em tempo real, no consultório e fora dele.
O ódio entra nessa história como cola. Amor por um candidato é frágil, exige que ele entregue algo, que cumpra, que apareça. Ódio a um inimigo comum é barato e dura. Une gente que não tem mais nada em comum e dispensa qualquer proposta. Freud já notava que grupos se afirmam, com frequência, contra alguém. O “nós” fica mais firme quando existe um “eles” bem desenhado.
Só que o manipulador competente não cria o ódio do zero. Isso seria trabalhoso demais. Ele procura o que já existe: a humilhação de quem se sente invisível, o medo de perder o pouco que conquistou, a raiva de quem trabalha muito e vê a conta não fechar, a vergonha de não caber no que a vida prometeu. Essa dor é real, quase sempre legítima. O truque está no passo seguinte. Ele pega um sofrimento difuso, sem endereço, e entrega um endereço. “Você está assim por causa deles.” Para quem carrega uma angústia sem nome, receber um culpado dá alívio imediato. É um alívio falso, mas o corpo não sabe disso na hora.
É aí que a psicanálise fala de projeção. Aquilo que não suporto reconhecer em mim, ou na minha história, deposito no outro. O outro passa a ser o mal, e eu passo a ser o bom. A conta emocional fecha, e o voto vira descarga. Muita gente não vota mais em alguém, vota contra alguém. Percebo a diferença quando escuto o que a pessoa diz sobre o candidato que escolheu: fala pouco dele e muito do adversário.
As redes sociais deram a esse processo uma velocidade que Freud não imaginou. Um vídeo de trinta segundos, cortado no ponto certo, faz o trabalho de um comício inteiro. O algoritmo recompensa o que provoca reação forte, e nada provoca mais reação do que indignação. Quem publica sabe disso, quem compartilha nem sempre. O grupo de família virou uma pequena multidão, com seus líderes de ocasião, seus boatos e sua vigilância mútua. Discordar ali custa caro, então muita gente cala ou repete.
Repare que isso acontece em qualquer campo político. Não se trata de direita ou esquerda. O método é o mesmo e serve a quem quiser usá-lo: encontrar a ferida, nomear o inimigo, acelerar a emoção antes que o pensamento chegue. Quem acha que só o outro lado faz isso já foi, em algum grau, alcançado por ele.
Como saber se você está sendo conduzido? Alguns sinais valem a atenção. Se um conteúdo te deixa com raiva em dois segundos, desconfie do que ele quer de você antes de acreditar no que ele diz. Se você sente prazer em ver o adversário humilhado, pergunte de onde vem esse prazer. Se não consegue mais descrever a posição do outro sem caricatura, é porque alguém fez a caricatura por você. E se a sua certeza cresce justamente quando as informações diminuem, o afeto já está mandando mais que a razão.
Nada disso pede que a gente deixe de ter lado. Ter posição é saudável, votar com convicção é parte da democracia. O ponto é saber de onde a convicção vem. Uma convicção construída com informação, dúvida e alguma paciência aguenta ser questionada. A que vem do ódio precisa de inimigo o tempo todo, porque sem ele desmorona.
Voltando à pergunta do título, o ódio serve, antes de tudo, a quem precisa do seu voto sem precisar merecê-lo. A poucas semanas da votação, vale um exercício desconfortável. Antes de decidir, escreva numa folha o que o seu candidato propõe fazer e o que ele já fez. Sem citar o adversário nenhuma vez. Se a folha ficar em branco, talvez o voto ainda seja do ódio, e não seu.




