Acusado tantas vezes de querer fechar igrejas, Lula faz uma defesa da fé que encontra uma conexão incômoda com uma das passagens mais contundentes do Evangelho
Há passagens do Evangelho que atravessam os séculos porque se recusam a ficar presas ao tempo em que foram escritas. Permanecem diante de nós como um espelho, fazendo perguntas que cada época precisa responder — e que, muitas vezes, preferiria evitar.
Uma delas acontece no Templo de Jerusalém.
Jesus entra e encontra comerciantes e cambistas ocupando um espaço destinado à oração. O lugar de encontro com o sagrado havia sido tomado por interesses comerciais. E ele reage. Derruba as mesas, expulsa os vendedores e interrompe aquela lógica.
“Minha casa será chamada casa de oração; vós, porém, a transformais em covil de ladrões”, registra o Evangelho de Mateus.
A força da passagem não está apenas no confronto com o comércio, mas na reflexão que impõe: o que acontece quando aquilo que deveria ser sagrado passa a ser utilizado para interesses que não têm relação com sua finalidade?
É justamente essa ideia que ressurge, de outra maneira, em uma declaração recente do presidente Lula.
Acusado repetidamente por adversários de querer fechar igrejas, Lula diz respeitar todas as religiões e rejeita transformar os templos em espaços de disputa eleitoral.
“Eu não acho que a gente deve utilizar o nome de Deus em vão. Eu não acho que a gente deve utilizar a religião eleitoralmente.”
É nesse ponto que a antiga narrativa dos vendilhões encontra uma questão muito contemporânea.
É importante não confundir os contextos. Jesus pertence a uma tradição religiosa e a um momento histórico completamente distintos; Lula fala como presidente e dirigente político em uma democracia contemporânea. Não existe equivalência entre os dois personagens e os episódios.
Existe, porém, uma questão comum que precisa ser repetida com mais clareza: o que acontece quando algo considerado sagrado passa a ser utilizado para conquistar dinheiro, influência ou poder?
O Brasil conhece bem essa disputa.
A religião ocupa hoje um espaço importante na arena pública. Candidatos buscam o diálogo com comunidades religiosas, campanhas chegam aos templos e convicções espirituais, em alguns casos, são apresentadas como critérios para separar aliados e adversários.
É nesse ambiente que a advertência de Lula ganha dimensão política.
“Se alguém achar que eu vou ganhar eleição porque vou numa igreja fazer discurso, esqueça de mim, eu não vou fazer”, afirma. “Não me faça utilizar uma igreja como palanque que eu não vou utilizar.”
A participação de religiosos na vida pública, naturalmente, é legítima. Outra coisa é transformar um espaço destinado à celebração religiosa em extensão de uma campanha.
Essa diferença importa porque uma democracia plural precisa acolher quem acredita de maneiras diferentes — e também quem não acredita.
É nesse sentido que outra passagem da fala de Lula chama atenção:
“Não importa que religião a pessoa participa. Não importa que clube ela torce. Não importa a cor. O que importa é o seguinte: ela é gente, é um ser humano e é brasileira e brasileiro e eu tenho que cuidar deles.”
Ela é gente.
A frase desloca o debate do terreno eleitoral para algo mais elementar: a dignidade humana.
Antes do eleitor, existe a pessoa. Antes da identidade partidária, existe o cidadão. Antes das diferenças que nos separam, existe uma condição comum que deveria orientar a ação pública: somos seres humanos.
E é justamente aí que a passagem dos vendilhões ganha uma leitura contemporânea.
Jesus não confrontou quem entrava no Templo em busca de Deus. Confrontou aquilo que havia tomado conta daquele espaço e desviado sua finalidade.
A crítica, portanto, não era contra a fé, mas contra sua transformação em instrumento de interesses.
Lula, ao falar sobre o assunto, estabelece uma fronteira semelhante:
“A religião é o espaço, o momento de você professar a sua fé. De você colocar para fora aquilo que você pensa do ponto de vista espiritual. De você conversar com Deus. De você dizer aquilo que é a verdade que está dentro de você. Então eu não tento fazer disso política.”
Essa separação é importante para preservar justamente aquilo que a religião tem de mais íntimo: sua liberdade diante do poder.
Porque uma igreja que precisa escolher um lado político para permanecer relevante corre o risco de deixar de ser lugar de encontro para se tornar lugar de divisão.
Mas talvez exista algo ainda maior nessa discussão.
Porque quando Deus entra no discurso eleitoral, não é a política que muda de lugar. É a fé que corre o risco de perder o seu.
O altar deixa de ser apenas altar. A oração passa a carregar uma expectativa de voto. O púlpito pode se transformar em tribuna. E o fiel, pouco a pouco, deixa de ser visto como alguém que busca consolo, esperança e transcendência para ser tratado como eleitor.
É uma inversão silenciosa.
A fé, que deveria libertar o ser humano de seus medos, passa a ser convocada para alimentá-los.
O nome de Deus, que deveria aproximar, pode ser usado para separar.
A mensagem de amor pode acabar servindo à construção de muros.
E é justamente aí que a antiga cena do Templo volta a ganhar força.
Jesus expulsou os vendedores porque não aceitava que a casa de Deus fosse reduzida a um espaço de negócios.
Lula diz não querer que ela seja convertida em palanque eleitoral.
São situações distintas, separadas por dois milênios e por contextos históricos e personagens que não podem ser confundidos. Mas a pergunta permanece.
O que acontece quando o poder entra pela porta da frente de um lugar onde as pessoas deveriam encontrar a própria consciência?
Lúcia Barbosa é mestra em Gestão Pública, autora do livro ‘ELEIÇÕES NO BRASIL/2010: uma análise dos manifestos em defesa da democracia’
*Este texto reflete a visão pessoal da autora




