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Os amigos de Flávio Bolsonaro

A amizade de Flávio Bolsonaro com o advogado Willer Tomaz, investigado por suspeita de lavagem de dinheiro relacionada aos desvios no INSS, não parece ser uma relação circunstancial. Ao contrário: os registros mostram que ela se fortaleceu ao longo do tempo e atravessou diferentes momentos da vida pública do senador.

Uma viagem à África do Sul, em março de 2025, reuniu os dois em um grupo privado de amigos, segundo fotografia revelada pelo jornal O Globo e detalhes publicados pela revista Piauí. Mais de um ano depois, em agosto de 2026, quando o nome de Willer já havia surgido nas investigações sobre as fraudes bilionárias envolvendo descontos indevidos em aposentadorias e pensões do INSS, Flávio utilizou, durante sua campanha em São Paulo, um apartamento pertencente ao advogado.

Por uma daquelas situações que o jornalista Reinaldo Azevedo costuma chamar de “coincidências incríveis”, e que deram origem ao seu conhecido Índice de Coincidências Incríveis (ICI), há ainda outro detalhe: o mesmo apartamento já pertenceu ao pastor Zettel, cunhado e apontado como operador financeiro de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.

A fotografia da viagem à África do Sul foi feita em março de 2025. Naquele momento, o escândalo dos descontos fraudulentos do INSS ainda não havia vindo a público — a fraude só seria revelada em abril daquele ano. Portanto, não seria razoável atribuir a Flávio, naquele momento, conhecimento sobre um esquema que ainda não havia sido revelado.

Mas Willer Tomaz tampouco era um nome desconhecido.

O advogado já havia aparecido nas investigações da CPI da Covid, em 2021, em meio a suspeitas relacionadas às negociações da vacina Covaxin, no governo de Jair Bolsonaro, pai de Flávio. Parlamentares chegaram a discutir a quebra de seus sigilos. Flávio Bolsonaro e aliados atuaram contra a iniciativa, e o senador chegou a se referir publicamente a Willer como “meu amigo Willer Tomaz”.

A viagem à África do Sul, portanto, não foi o início da relação. Foi apenas um dos momentos em que ela se tornou pública.

Flávio, Willer, o senador Weverton Rocha e suas respectivas esposas integravam um grupo de WhatsApp chamado “África do Sul”. Também fazia parte do grupo o empresário Carlos Alberto de Sá, conhecido como Carlinhos, que igualmente havia sido alvo da CPI da Covid.

Carlinhos é sócio da VTCLog. Em 2021, a comissão parlamentar pediu o indiciamento dele e de sua sócia, Teresa Cristina Reis de Sá, por corrupção ativa e improbidade administrativa.

O relatório da CPI da Covid apontou suspeitas envolvendo contratos do Ministério da Saúde. Entre os elementos levantados estavam R$ 4,7 milhões sacados em dinheiro vivo por um funcionário da VTCLog e o pagamento de boletos pessoais do então diretor de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Ferreira Dias. A comissão também apontou indícios de um possível “jogo de planilha” e de superfaturamento estimado em R$ 17 milhões.

Todos os envolvidos negam as acusações.

Nenhum desses fatos, isoladamente, prova que Flávio Bolsonaro tenha cometido crime. E é importante não confundir investigação com condenação.

Mas essa não é a questão central.

A questão é a contradição política.

Quem se apresenta como candidato da tolerância zero contra a corrupção deveria saber que sua credibilidade também é medida pela coerência de suas relações. Não basta dizer que se combate a corrupção; é legítimo perguntar quais são os critérios usados para escolher amigos, aliados e pessoas que permanecem próximas mesmo depois de aparecerem em investigações.

Flávio pode dizer que amizade não é crime. E terá razão.

Mas o eleitor também pode perguntar por que tantos personagens presos ou cercados por suspeitas e investigações aparecem, repetidamente, tão próximos de um candidato que construiu sua candidatura justamente sobre o discurso de combate à corrupção.

Como pedir ao eleitor que confie em seu discurso anticorrupção enquanto seu próprio círculo de relações produz uma sucessão de episódios que exige investigações.

Quando o discurso é “tolerância zero”, a régua deveria valer também para os amigos.

No fim, a fotografia da África do Sul é apenas a imagem mais visível de algo maior: uma rede de relações que atravessa personagens investigados em episódios diferentes e que, apesar disso, continuam próximos de quem pretende se apresentar ao país como representante de uma política de “mãos limpas”.

Não é a fotografia que precisa ser explicada.

É a contradição entre o discurso e a prática política que precisa ser enfrentada.

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