Por Severino Angelino – Psicanalista
Você já tentou. Prometeu a si mesmo: “vou deixar o celular de lado durante o almoço”, “não vou olhar antes de dormir”, “só cinco minutinhos de silêncio, só isso”. E, sem perceber, a mão já estava lá, o polegar já deslizava na tela, os olhos já tinham encontrado alguma notificação, algum vídeo, alguma frase de alguém que nem lembra bem quem é.
Depois veio a culpa. Aquela sensação chata de “eu não tenho disciplina”, “sou fraco”, “não consigo nem isso”. Pois eu preciso dizer uma coisa, com todas as letras: não é sobre força de vontade. E entender isso pode ser o primeiro passo para você respirar mais fundo e se cobrar menos.
Como psicanalista, escuto isso quase toda semana, embaixo de queixas que parecem outras: ansiedade, insônia, dificuldade de concentração, sensação de estar sempre “meio ausente” da própria vida. E quando puxamos o fio, o celular aparece não como vilão isolado, mas como sintoma de algo mais antigo em nós: a dificuldade humana de conviver com o vazio.
Porque é isso que cinco minutos sem estímulo nos oferecem: vazio. Silêncio. Um espaço em branco onde nenhuma voz de fora está nos dizendo o que sentir, pensar ou fazer. E esse espaço, para a mente contemporânea, tornou-se quase insuportável.
Não por acaso. Cada notificação, cada curtida, cada mensagem nova ativa no cérebro um circuito de recompensa, o mesmo que se ativa em outros comportamentos compulsivos. Isso não é fraqueza de caráter: é neurociência combinada com arquitetura de aplicativos desenhados, por equipes inteiras de especialistas, exatamente para capturar sua atenção pelo maior tempo possível. Você não está perdendo uma batalha justa. Está competindo contra bilhões de dólares investidos para que você não largue a tela.
Mas há uma camada ainda mais íntima nisso tudo. Quando o silêncio chega, quando não há nada para nos distrair, algo dentro de nós pode aparecer: um pensamento incômodo, uma lembrança, uma pergunta que preferíamos não fazer a nós mesmos. “Estou feliz com minha vida?” “Para onde estou indo?” “O que estou sentindo, na verdade?”
O celular, nesse sentido, funciona como uma anestesia disponível 24 horas por dia. Ele nos poupa do encontro com nós mesmos. E não é à toa que pegamos o aparelho justamente nos momentos de maior vulnerabilidade emocional: no elevador, na fila, na cama antes de dormir, no primeiro segundo de silêncio depois de uma notícia ruim. É ali, exatamente ali, que a mente mais precisaria de espaço e é ali que corremos para preenchê-lo.
É importante dizer: sentir essa dificuldade não é sinal de fraqueza nem de patologia. É sinal de que você é humano, vivendo em um tempo histórico sem precedentes, onde a tecnologia avançou mais rápido do que nossa capacidade psíquica de lidar com ela. Nenhuma geração antes da nossa precisou aprender a conviver com um dispositivo que cabe na mão e contém, ao mesmo tempo, todo o conhecimento do mundo e toda a solidão dele também.
Se cobrar por isso é como se cobrar por sentir sede depois de passar horas no sol. A questão não é anular o desejo é entender de onde ele vem, e criar, aos poucos, outras formas de lidar com o que emerge quando a tela se apaga.
Não estou aqui para propor um “detox digital” de 30 dias nem para demonizar a tecnologia. Estou propondo algo mais simples e, talvez, mais difícil: da próxima vez que a mão for automaticamente até o bolso ou a bolsa, pare um segundo antes. Não para se julgar. Para perguntar: o que eu estou tentando não sentir agora?
Essa pergunta, feita com curiosidade e não com culpa, é o começo de uma relação mais consciente, não só com o celular, mas com você mesmo. Porque, no fim das contas, o problema nunca foi a tela. Foi tudo aquilo que ela nos ajuda, tão eficientemente, a não olhar de frente.
A próxima vez que você sentir aquele impulso quase automático de pegar o celular, experimente apenas observar: o que você sentiria se não o pegasse agora?
Severino Angelino é Psicanalista, Bel. em Direito, Escritor e Graduando em Fonoaudiologia. Autor de ‘O Abismo Invisível: Depressão’ – Um olhar sobre a depressão na adolescência e a importância do apoio familiar.
*Este texto reflete a visão pessoal do autor.




