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O homem do capote preto

Diariamente, de segunda a domingo, noite sim, outra também, ele saia pelas calçadas, sempre célere, sem tropegar. Ninguém via suas vestes porque um capote Renner lhe cobria o corpo, abrandando o frio das noites e madrugadas de Arapiraca. Algumas vezes, era visto vindo para o centro pela rua 30 de Outubro, outras, pela rua Manoel André (rua do Comércio), mas sempre em direção ao ponto de saída do ônibus para Maceió. Este périplo, fazia constantemente, 30 a 40 minutos antes da saída do coletivo, primeiro quando os ônibus da Expresso Arapiraquense saíam do Bar do Pisca. Depois, já com a Empresa Penedense, quando o ponto de saída era no início da rua Estudante José de Oliveira Leite.

O capote preto, marca Renner, ele não tirava nunca. Nas noites chuvosas, acrescentava um chapéu de feltro, marca Ramezoni, para tentar desviar os pingos de água na cabeça quase sem cabelos. Estava ficando careca.

Para os viajantes, que em noites frias também se agasalhavam antes da partida do ônibus, era comum encontrar o homem do capote preto do lado contrário ao veículo, a tomar café num copo de vidro. Calado, algumas vezes respondia ao boa noite do viajante. No tempo do Bar do Pisca, ao lado do ônibus de Florisvaldo Barbosa Magalhães, ele ficava quase na praça Marques da Silva, em frente ao veículo. No tempo da Empresa Penedense, contudo, era presença certa na torda da Dolores, vendedora de café coado no pano diretamente no bule e que sempre era acompanhado de entope pulmão (espécie de bolo, redondo e pequeno, que continha mais fermento que ovos e trigo). Vale aqui dizer que Dolores e seu filho de menor moravam perto da rua Boa Vista e vinham todas as noites vender café aos viajantes nas madrugadas frias de Arapiraca.

De tanto andar pelas ruas da cidade, muitos pais faziam dele o bicho papão, querendo enganar os filhos pequenos que teimavam em andar pelas ruas depois das 10 horas da noite, quando a Força e Luz de Arapiraca desligava seus motores que geravam eletricidade. Intrigante, Olegário, o homem do capote preto, sem saber que suas andanças noturnas serviam até para fazer medo às crianças, saía serelepe pelas ruas a paralelepípedos, sem tropeçar. E sem saber que sua figura servia como apaziguador de criança malcriada ou daquela que teimava em chegar tarde para dormir o sono do justo.

Nos fins dos anos 80, aliás nos fins das noites, estreladas ou chuvosas, quentes ou frias, o homem do capote preto deixou de caminhar pelas ruas de Arapiraca, que perdeu um dos seus símbolos folclóricos. Simplesmente, sumiu!

Por onde andará Olegário, o homem do capote preto?

P.S. Diferente do publicado no artigo A administração da igreja de São Sebastião, o capote preto do homem que nas madrugadas era visto, diariamente, pelo morador da praça Marques da Silva (João Lúcio da Silva) era da marca Renner e não Serrano, como ali está.

Jornalista

*Este texto reflete a visão pessoal do autor.

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