spot_img

Pais que viram “amigos” dos filhos: onde foi parar a autoridade?

Por Severino Angelino — Psicanalista

Tem uma cena que se repete, com pequenas variações, em quase toda família que passa pelo consultório: o filho grita, desafia, decide sozinho o que quer ou não quer fazer e o pai, ou a mãe, cede. Não porque concorda. Cede porque tem medo. Medo de ser “o chato”. Medo de ser comparado aos próprios pais, que foram rígidos demais. Medo, sobretudo, de perder o amor do filho.

E é justamente nesse medo que a autoridade foi, aos poucos, sendo trocada por simpatia.

Por muito tempo, autoridade e autoritarismo foram confundidos como sinônimos. Gerações inteiras cresceram sob o “porque eu disse e pronto”, sem espaço para pergunta, sem direito a sentir. Era uma autoridade sem escuta.

O movimento pendular era esperado: a geração seguinte jurou não repetir isso. Só que, ao tentar fugir do autoritarismo, muitos pais foram longe demais e abandonaram também a autoridade que é outra coisa completamente diferente. Confundiram impor limite com sufocar, e explicar com negociar tudo, o tempo inteiro, até a criança decidir sozinha o que é melhor para ela.

Existe uma fantasia bonita por trás dessa mudança: a ideia de que, sendo “amigo” do filho, o vínculo fica mais próximo, mais verdadeiro, sem a hierarquia que machuca. Só que essa fantasia ignora algo estrutural do desenvolvimento humano: na maior parte das situações do dia a dia, a criança ainda não tem repertório para carregar sozinha o peso de certas decisões. Ela precisa de alguém maior, mais experiente, que segure essa função por ela, não porque ela é incapaz, mas porque esse é justamente o lugar que sua estrutura psíquica ainda está construindo.

Quando os pais abrem mão desse lugar, o filho não fica mais livre. Fica mais sozinho. Sem perceber, ele passa a ocupar um vazio de comando que não é papel de criança preencher, e isso gera, com frequência, mais ansiedade, não menos.

Aqui mora um dos maiores enganos dessa discussão: tratar amizade e autoridade como se fossem excludentes. Não são. Um pai pode, e deve, ser afetuoso, próximo, presente, alguém com quem se conversa sobre qualquer assunto. Isso não anula a autoridade. O que anula a autoridade é a ausência de limite, não a presença de carinho.

A autoridade saudável não grita, não bate e não humilha, isso não é disciplina, é violência, e a criança tem o direito de crescer sem ela. Mas autoridade também não pode desaparecer atrás da vontade de agradar. Ela se sustenta em uma frase simples, difícil de dizer, mas estruturante: “eu entendo que você não gosta, mas a resposta é não.” Dita com firmeza e sem culpa.

Boa parte dessa mudança de postura nasce de um lugar compreensível: a dificuldade dos próprios pais de tolerar o sofrimento do filho, mesmo que seja um sofrimento pequeno e necessário, como a frustração de não conseguir algo na hora. Ver o filho chorar, bravo, incomodado, mexe com uma ferida antiga em muitos adultos que também não tiveram espaço para essas emoções quando crianças.

Só que fugir desse desconforto tem um custo alto: a criança que nunca é confrontada com o “não” cresce sem desenvolver a capacidade de lidar com frustração. E essa capacidade é uma das ferramentas mais importantes que ela vai carregar para a vida adulta.

A autoridade não desapareceu por acaso. Foi trocada, muitas vezes, pelo medo dos próprios pais: medo de errar, medo de não ser amado de volta, medo de repetir um passado doloroso. É um medo legítimo, mas que, sem ser trabalhado, acaba cobrando um preço alto: filhos crescendo com liberdade de escolha antes da hora, e adultos exaustos, sem saber mais que lugar ocupam dentro de casa.

Recuperar a autoridade não significa voltar ao “porque eu disse e pronto”. Significa ocupar, com presença e sem culpa, o lugar de quem guia porque, com frequência, é exatamente isso que uma birra está pedindo, ainda que disfarçada de desafio.

Talvez o gesto mais generoso não seja mais um dia de complacência, mas a coragem de sustentar um “não” e, com ele, o lugar de referência que nenhum filho, por mais que reclame, quer ver vazio.

Severino Angelino é Psicanalista, Bel. em Direito, Escritor e Graduando em Fonoaudiologia. Autor de ‘O Abismo Invisível: Depressão’ – Um olhar sobre a depressão na adolescência e a importância do apoio familiar.

*Este texto reflete a visão pessoal do autor.

Leia Também

- Publicidade -spot_img
- Publicidade -spot_img

Últimas dos Blogs