A campanha de Flávio Bolsonaro já não esconde suas referências. Na economia, olha para Javier Milei. Na política externa, o bolsonarismo mantém uma aproximação cada vez mais estreita com Donald Trump. O resultado é um projeto que combina a austeridade radical do governo argentino com uma relação de forte alinhamento com Washington.
A coordenadora econômica da campanha, Daniella Marques, foi explícita ao defender a experiência argentina. Em evento realizado na segunda-feira (14), afirmou que a equipe de Flávio pretende se inspirar nas reformas implementadas por Milei, incluindo desregulamentação, redução da burocracia, revisão de gastos e revogação de mais de mil normas.
Flávio também apresenta seu próprio pacote de redução do Estado, que chama de “tesouraço”, com corte de despesas, redução da estrutura administrativa, privatizações e revisão de regras. A referência, portanto, não é uma interpretação externa: é assumida pela própria campanha.
O problema é olhar para aquilo que está acontecendo na Argentina e perguntar o que, exatamente, se pretende importar.
A Argentina de Milei
A inflação argentina despencou em relação ao patamar superior a 200% ao ano herdado por Milei. Esse é um resultado concreto e utilizado pelo governo como principal vitrine de sua política econômica.
Mas inflação menor não significa automaticamente maior poder de compra.
A queda dos preços ocorreu em meio a uma compressão severa do consumo, enquanto trabalhadores e empresas enfrentaram desemprego, redução de atividade e perda de mercado. A indústria argentina tornou-se um dos principais campos de batalha desse modelo.
O caso da fábrica de calçados Kioshi é emblemático. A empresa tinha 120 funcionários em 2023. Hoje, restam apenas 14. A produção despencou diante da retração do consumo e da concorrência dos produtos importados.
Não se trata de um caso isolado.
A indústria argentina perdeu aproximadamente 90 mil empregos desde agosto de 2023, segundo dados apresentados pela União Industrial Argentina. Quase 30 mil empresas fecharam no período. A produção manufatureira também sofreu forte retração, enquanto fábricas passaram a trabalhar muito abaixo de sua capacidade.
É a face menos celebrada da chamada “motosserra”.
O governo argentino sustenta que empresas ineficientes precisam desaparecer e que os trabalhadores deslocados serão absorvidos por setores mais competitivos. O problema é que, no intervalo entre o fechamento da fábrica e a criação do suposto novo emprego que pode nunca chegar, existe uma vida real: salário que desaparece, consumo que cai, família que perde renda e trabalhador que precisa recorrer à informalidade ou aos aplicativos.
A promessa de que o mercado encontrará uma solução futura não paga a conta do supermercado no presente.
E esse é precisamente o ponto que precisa ser levado ao debate brasileiro quando a Argentina de Milei é apresentada como exemplo.
Quando a inflação cai porque o consumo desaparece
Há uma contradição fundamental no modelo argentino.
A inflação pode cair porque o governo conseguiu estabilizar variáveis macroeconômicas. Mas também porque milhões de consumidores simplesmente deixaram de comprar como antes.
Para a indústria, isso é devastador.
Uma fábrica não sobrevive apenas com contas públicas equilibradas. Precisa vender. Precisa de consumidores. Precisa de crédito. Precisa de trabalhadores com renda. Precisa de um mercado interno capaz de absorver sua produção.
Quando o ajuste comprime simultaneamente salários, consumo e atividade industrial, a economia pode apresentar indicadores macroeconômicos positivos enquanto a economia real sofre.
É essa Argentina que desaparece quando Milei é transformado apenas em símbolo de austeridade.
E é justamente essa experiência que a equipe econômica de Flávio Bolsonaro diz querer usar como inspiração.
O segundo componente: Trump
Se Milei aparece como referência econômica, Donald Trump ocupa espaço central na visão internacional do bolsonarismo.
Eduardo Bolsonaro mantém atuação política nos Estados Unidos e já utilizou interlocutores e autoridades americanas para pressionar o Brasil em questões envolvendo tarifas.
O problema não é simplesmente ter boas relações com os Estados Unidos. O Brasil, como potência econômica e diplomática, deve manter relações com Washington, Pequim, Bruxelas, Buenos Aires e com o conjunto da comunidade internacional.
A questão é outra: até onde vai o alinhamento e onde começa a submissão?
Uma política externa soberana pode negociar com a maior potência do mundo sem transformar seus interesses em extensão dos interesses de Washington.
Essa diferença é fundamental.
A Venezuela e a conta da soberania
É aqui que o caso venezuelano entra no debate.
O acordo anunciado entre Estados Unidos e Venezuela envolve o acesso americano a aproximadamente 65 bilhões de barris de petróleo venezuelano. A Venezuela possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, estimadas em cerca de 303 bilhões de barris.
E existe uma cifra que resume a dimensão econômica da discussão.
Segundo os termos divulgados, a Venezuela receberá US$ 19 por barril vendido. A mesma informação aponta que esse valor está cerca de 78,5% abaixo do preço de mercado.
Em outras palavras: diante de um petróleo negociado na casa de dezenas de dólares por barril, a Venezuela receberia apenas US$ 19 por unidade dentro do acordo.
Considerando, por exemplo, um barril a US$ 100, os US$ 19 pagos à Venezuela representariam apenas 19% do valor de referência. A diferença seria de US$ 81 por barril.
Multiplicada por bilhões de barris, a diferença deixa de ser uma questão abstrata e passa a representar uma transferência gigantesca de valor.
O acordo envolve ainda um volume anunciado de 65 bilhões de barris. Se fosse aplicado simplesmente o diferencial hipotético de US$ 81 por barril em um cenário de petróleo a US$ 100, estaríamos falando de uma diferença nominal de US$ 5,265 trilhões ao longo de todo o volume. Isso é uma conta ilustrativa, não uma estimativa do valor efetivamente transferido, porque preços, custos, royalties, investimentos, qualidade do petróleo, prazos e condições contratuais variam.
Ainda assim, a dimensão ajuda a compreender o que está em jogo.
Petróleo não é apenas mercadoria. É poder geopolítico.
Quem controla sua exploração, sua comercialização e seus fluxos financeiros controla uma parcela importante da capacidade econômica de um país.
Por isso, a soberania sobre recursos naturais não é uma abstração nacionalista. É uma questão concreta de poder econômico.
O que o projeto de Flávio coloca em discussão
O Brasil possui uma economia muito maior e mais diversificada do que a da Argentina. Um enorme mercado consumidor, indústria relevante, agricultura competitiva, reservas minerais e energéticas estratégicas e uma posição central na América do Sul.
Copiar experiências externas sem considerar essas características seria, no mínimo, uma escolha que precisaria ser examinada com enorme cuidado.
A experiência argentina oferece um alerta: estabilizar a inflação pode ser necessário, mas não basta se o preço da estabilização for a destruição de empregos, a redução do consumo e o encolhimento da indústria.
A experiência venezuelana coloca outra questão: riqueza natural sem soberania efetiva sobre sua exploração pode transformar uma imensa reserva de recursos em instrumento de poder de terceiros.
É nesse ponto que o projeto defendido por Flávio Bolsonaro precisa ser confrontado.
Milei na economia. Trump como referência internacional.
O Brasil precisa decidir se quer apenas importar receitas econômicas estrangeiras ou construir uma estratégia própria, capaz de equilibrar responsabilidade fiscal, crescimento, emprego, indústria, poder de compra e autonomia nacional.
Porque austeridade pode ser uma política econômica.
Alinhamento internacional pode ser uma escolha diplomática.
Mas soberania não deveria ser tratada como moeda de troca.
Lúcia Barbosa é mestra em Gestão Pública, autora do livro ‘ELEIÇÕES NO BRASIL/2010: uma análise dos manifestos em defesa da democracia’
*Este texto reflete a visão pessoal da autora




