Algumas histórias são escritas para serem vividas em movimento, mudanças de caminho, encontros inesperados e descobertas que chegam sem aviso. A de Lêda Félix é uma delas: feita de recomeços silenciosos, escolhas que não se explicam inteiramente e uma capacidade rara de transformar o cotidiano em alegria.
Um dia, ela foi noviça. Viveu o recolhimento, a disciplina, o diálogo íntimo com a fé. Era um tempo de escuta — do mundo e de si mesma. Mas nem todo chamado permanece. E o dela, curiosamente, se revelou na negativa: foi convidada pela madre superiora a deixar o convento, por uma razão tão direta quanto humana — faltava-lhe talento para a vida religiosa.
E talvez ali, naquele instante que poderia soar como rejeição, estivesse um dos maiores gestos do destino. Porque há portas que se fecham não para encerrar histórias, mas para devolvê-las ao mundo.
Lêda saiu do convento, mas não da essência. Durante o dia, trabalha na portaria de um edifício residencial, onde se tornou rosto conhecido, voz acolhedora e presença alegre, festiva, cheia de brincadeiras. Quem chega cansado encontra nela um “boa tarde” com sorriso fácil, uma piada pronta, um jeito leve de tornar o cotidiano mais humano. Quem sai apressado leva, sem perceber, um pouco da sua energia boa.
Diante de um problema, Lêda não é muito de aceitar o “não tem jeito”. Primeiro tenta consertar. Se não der, improvisa. E, quando falta ferramenta, aí começa o espetáculo: entra fita adesiva, arame, barbante, uma tampa que ninguém sabe de onde veio e, se for preciso, até uma colher pode ganhar nova função. O resultado é uma gambiarra tão criativa quanto duvidosa — daquelas que fazem qualquer engenheiro pedir distância, mas que, por algum misterioso motivo, funcionam, até que… 💥 e começa tudo outra vez porque o show não pode parar.
Entre um turno e outro, há ainda a filha. A cuidadora. Aquela que volta para casa e assume, com ternura e responsabilidade, o papel de amparo dos pais idosos. Porque Lêda é dessas pessoas que sustentam o mundo sem fazer alarde.
Mas quando a noite cai em Maceió, ela floresce. A porteira dá lugar à cantora. A rotina vira palco. A vida ganha trilha sonora. Nos bares, nas esquinas, nos pequenos espaços onde a música insiste em resistir, Lêda canta.
E não apenas canta. Gosta de botar o povo para cantar também. No karaokê, chama, incentiva, provoca quem está tímido e transforma espectadores em participantes. Para Lêda, música também é encontro, diversão e uma maneira de aproximar as pessoas.
Sua voz não é apenas melodia — é memória, é resistência, é alegria que insiste. Há algo de leve e profundo quando ela solta um verso, como quem diz: a vida pode até ser dura, mas ainda é possível dançar com ela.
Com o sobrenome que termina quase em assobio — Félix —, ela segue, deixando a vida levá-la, sim, mas nunca à deriva. Porque há direção em quem carrega fé, coragem e afeto no peito.
De dia, trabalho. De noite, música. Entre uma coisa e outra, consertos, gambiarras, cuidados, brincadeiras e gente sendo chamada a cantar.
No meio disso tudo, uma mulher inteira.
Lêda não é só ex-noviça, nem apenas porteira ou cantora. Ela é travessia. É dessas histórias que lembram, com doçura, que viver não é caber em um destino — é ter coragem de reinventá-lo.
Lúcia Barbosa é mestra em Gestão Pública, autora do livro ‘ELEIÇÕES NO BRASIL/2010: uma análise dos manifestos em defesa da democracia’
*Este texto reflete a visão pessoal da autora




