Por Severino Angelino – Psicanalista
Toda eleição vem acompanhada da mesma ilusão: a de que estamos pensando por conta própria. Discutimos, argumentamos, compartilhamos, brigamos em grupos de família, convictos de que chegamos às nossas posições através da razão. Mas raramente paramos para perguntar: de onde veio essa certeza que hoje defendemos com tanta veemência? Quem a plantou, e quando?
A manipulação política eficaz não parece manipulação. Ela parece opinião própria.
Não é por acaso que as campanhas mais agressivas não falam de propostas, mas de ameaças. O cérebro humano reage ao medo antes de reagir à lógica, é uma questão de sobrevivência, não de burrice. Quando alguém nos convence de que o outro lado vai destruir o país, a família ou o futuro dos filhos, deixamos de avaliar argumentos e passamos a nos defender. E quem está em modo de defesa não delibera: obedece ao instinto.
Political marketing sabe disso há décadas. O eleitor assustado não pergunta “isso é verdade?”. Pergunta “como faço isso parar?”. E ali, nessa pergunta, mora a porta por onde entra qualquer discurso que prometa uma solução simples para uma ameaça inventada.
Poucas coisas doem tanto quanto a sensação de exclusão do próprio grupo. Por isso, discordar publicamente de um candidato dentro da própria bolha social custa caro: custa amizades, jantares de família, a sensação de pertencimento. Manipuladores políticos, de qualquer espectro, sabem que é mais fácil vender uma identidade do que uma ideia. Quando “votar em X” vira sinônimo de “ser dos nossos”, a discussão deixa de ser sobre política e passa a ser sobre lealdade tribal. E ninguém gosta de ser chamado de traidor.
É por isso que memes, apelidos pejorativos e frases de efeito funcionam tão bem: eles não convencem, eles demarcam território. Dizem “este é o time certo” antes mesmo de qualquer argumento aparecer.
Um princípio simples da psicologia cognitiva: quanto mais uma informação é repetida, mais familiar ela parece, e o cérebro confunde familiaridade com veracidade. É o chamado efeito de verdade ilusória. Um boato repetido cem vezes em grupos de WhatsApp não fica mais verdadeiro, mas fica mais fácil de acreditar, porque a mente cansada usa um atalho perigoso: “se todo mundo está dizendo, deve ser verdade”.
Isso explica por que fake news não precisam ser sofisticadas para funcionar. Precisam apenas ser repetidas no lugar certo, pela pessoa certa, no momento em que já estamos emocionalmente inclinados a acreditar.
Não existe vacina contra manipulação, mas existe higiene mental possível:
Perceber quando uma informação nos deixou eufóricos ou enfurecidos rápido demais, esse é o sinal mais confiável de que fomos emocionalmente acionados antes de racionalmente convencidos. Perguntar quem lucra com a nossa raiva específica, não apenas com a nossa opinião. Notar quando discordar de alguém do próprio grupo provoca mais desconforto do que a própria dúvida sobre o fato em si. E, sobretudo, aceitar uma ideia difícil: parte do que defendemos como convicção política foi, em algum momento, instalado em nós por alguém que sabia exatamente qual botão apertar.
Isso não invalida o voto de ninguém. Mas devolve a cada eleitor uma pergunta que vale mais do que qualquer debate entre candidatos: a posição que defendo hoje é minha, ou é apenas a que me ensinaram a sentir como minha?
Em época de eleição, essa pergunta desconfortável talvez seja o único antídoto que ainda temos.
Severino Angelino é Psicanalista, Bel. em Direito, Escritor e Graduando em Fonoaudiologia. Autor de ‘O Abismo Invisível: Depressão’ – Um olhar sobre a depressão na adolescência e a importância do apoio familiar.
*Este texto reflete a visão pessoal do autor.




