A participação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte, realizada em Ancara, foi marcada por declarações duras contra aliados europeus, novas críticas à Espanha e pela retomada de sua defesa da incorporação da Groenlândia aos Estados Unidos. Apesar do tom agressivo diante da imprensa, o líder americano adotou uma postura mais moderada durante a reunião reservada com os demais chefes de Estado da aliança militar.
Antes do encontro oficial, Trump acusou países europeus de não apoiarem a campanha militar americana contra o Irã, classificou a Espanha como um parceiro problemático e voltou a afirmar que considera a Groenlândia estratégica para os interesses dos Estados Unidos. O presidente chegou a dizer que o território nunca deveria ter deixado o controle americano.
Segundo informações do jornal El País, durante a sessão fechada da cúpula o presidente evitou repetir as críticas mais contundentes e não abordou diretamente a questão da Groenlândia diante dos demais líderes. Também deixou de mencionar, na reunião, as críticas direcionadas ao primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, à premiê italiana Giorgia Meloni e ao chanceler alemão Friedrich Merz.
O descontentamento de Trump com a Espanha está ligado à decisão de Madri de não aderir ao compromisso de elevar os gastos militares para 5% do Produto Interno Bruto, além da recusa em disponibilizar bases militares espanholas para operações americanas relacionadas ao conflito com o Irã.
Após o encerramento da reunião, o presidente americano adotou um discurso mais conciliador. Ele classificou o encontro como um sucesso, afirmou que houve unidade entre os participantes e elogiou os demais líderes presentes, contrastando com o tom adotado poucas horas antes.
Mesmo assim, suas declarações iniciais aumentaram o clima de tensão entre os integrantes da OTAN. Durante conversa com jornalistas, Trump chegou a mencionar a possibilidade de romper relações comerciais com a Espanha, embora essa hipótese seja considerada de difícil execução devido à participação espanhola na União Europeia e no mercado comum europeu.
A incerteza provocada pelo comportamento do presidente americano também influenciou os bastidores da aliança. De acordo com o El País, ainda não há definição sobre a realização da próxima cúpula da OTAN, inicialmente prevista para ocorrer na Albânia em 2027, diante do receio de novos episódios de confronto diplomático.
Trump também demonstrou insatisfação com a falta de apoio dos aliados à ofensiva americana contra o Irã, embora o conflito esteja fora do escopo de atuação da OTAN. Além disso, voltou a cobrar maior investimento militar dos países membros, especialmente daqueles que destinam menores percentuais de seus orçamentos à defesa.
Na véspera da cúpula, o presidente havia sugerido, inclusive, a possibilidade de retirar tropas americanas estacionadas na Europa, onde os Estados Unidos mantêm cerca de 80 mil militares. No entanto, durante a reunião reservada, reafirmou o compromisso de seu governo com a permanência na OTAN e assinou a declaração final do encontro, que reforça o princípio da defesa coletiva entre os integrantes da aliança.
O secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, buscou minimizar os atritos ao afirmar que Washington permanece plenamente comprometido com a organização. Ele também elogiou a pressão exercida por Trump para que os aliados ampliem seus investimentos em defesa e reconheceu a importância estratégica da segurança no Ártico.
Rutte ainda destacou que seguem em andamento negociações entre Estados Unidos, Dinamarca e Groenlândia sobre o fortalecimento da presença militar na região, incluindo estudos para instalação do sistema antimísseis americano conhecido como “Domo Dourado”.
As declarações de Trump provocaram reações entre líderes europeus. Durante a cúpula em Ancara, a primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, reafirmou que a Groenlândia faz parte do território soberano dinamarquês e não está à venda. Ela defendeu o respeito à integridade territorial do país e aos direitos da população groenlandesa. Na mesma linha, a primeira-ministra da Islândia, Kristrún Frostadóttir, declarou que cabe exclusivamente aos groenlandeses decidir o futuro da ilha.
O apoio europeu à Dinamarca, porém, não é recente. No início deste ano, quando Trump já havia sugerido a possibilidade de assumir o controle da Groenlândia, o presidente da França, Emmanuel Macron, defendeu a soberania dinamarquesa e afirmou que a solidariedade entre os integrantes da OTAN pressupõe respeito à integridade territorial de todos os aliados.




