Por Severino Angelino – Psicanalista
“Se essa pessoa não sente ciúme, é porque não te ama de verdade.” A frase parece um teste de amor, mas é, na verdade, uma pergunta mal formulada, e a resposta honesta incomoda mais do que a pergunta.
Porque não. Ciúme não é medida de amor. E acreditar nisso, por mais romântico que pareça, já fez muita gente confundir controle com cuidado, vigilância com paixão, medo com intimidade, homens e mulheres, em qualquer tipo de relação.
É hora de desmontar essa ideia peça por peça.
A lógica popular inverte a origem do sentimento. Ciúme não nasce da grandeza do outro, nasce do medo de perdê-lo. E medo de perder não é a mesma coisa que amor: é insegurança, é a sensação de que o próprio valor depende da presença do outro, é o pavor de ficar sozinho com aquilo que se sente por dentro. Isso não escolhe gênero, atravessa qualquer pessoa que já tenha sentido que pode não ser suficiente para segurar uma relação.
Quando alguém diz “eu sinto ciúme porque te amo”, geralmente o mais honesto seria dizer “eu sinto ciúme porque tenho medo de não ser suficiente”. São frases muito diferentes, e só uma delas é sobre o parceiro ou a parceira.
Pense na diferença entre confiar em alguém porque você conhece o caráter dessa pessoa, e “confiar” porque você monitora cada passo dela. A primeira é relação. A segunda é controle disfarçado de vínculo. Quando o afeto depende de checar celular, cronometrar respostas, interrogar sobre horários, o que sustenta a relação não é confiança, é ansiedade administrada às custas da liberdade do outro. Isso acontece em relações heterossexuais, homoafetivas, em qualquer configuração, o mecanismo psíquico é o mesmo, e não pertence a nenhum gênero específico.
Isso é especialmente perigoso porque, culturalmente, aprendemos a ler esse comportamento ao contrário: quanto mais alguém controla, mais “apaixonado” parece. Só que apego ansioso e amor saudável não são a mesma experiência emocional, mesmo quando se parecem por fora, não importa quem, no casal, esteja controlando ou sendo controlado.
Naturalizar o ciúme como prova de amor não é só um erro de interpretação, tem consequências concretas. É esse mito que faz uma pessoa aceitar ser impedida de ver amigos, justificando “é só ciúme”. É ele que faz alguém confundir explosões de raiva com paixão intensa. Em casos mais graves, é a porta de entrada para relações de controle que evoluem para abuso emocional, e isso não tem sexo definido: tanto quem controla quanto quem é controlado podem ser homens ou mulheres, e ambos, muitas vezes, sinceramente acreditam que aquilo é cuidado.
Quando o ciúme é romantizado, o controle vira linguagem de amor. E isso torna mais difícil reconhecer a hora de dizer “isso não está certo”, para qualquer um dos dois lados.
Vale uma distinção importante: sentir uma pontada de insegurança de vez em quando é humano, ninguém precisa se culpar por isso. O problema não é o sentimento passageiro, é o que se faz com ele. Uma pessoa pode sentir uma fisgada de insegurança e escolher conversar sobre o que sentiu. Outra pode sentir a mesma fisgada e escolher vasculhar o celular do parceiro ou da parceira. O sentimento é semelhante; a resposta a ele é que define se aquilo vira intimidade ou vigilância.
- Esse ciúme está me fazendo buscar conversa, ou está me fazendo controlar?
- O que eu tenho medo de perder, e esse medo é sobre a outra pessoa, ou sobre mim?
- Eu aceitaria, da minha parte, o mesmo comportamento que exijo do outro?
Amor que precisa de prisão para se sustentar não é intensidade, é fragilidade disfarçada de paixão. Relações fortes não se sustentam no medo de perder o outro. Sustentam-se na liberdade de ficar, escolhida todos os dias, por quem quer estar ali.
Então, quem sente ciúme, ama mais? Talvez sinta medo, insegurança, necessidade de controle, sentimentos reais, mas que não são sinônimo de amor, seja quem for a pessoa que sente. A pergunta que vale a pena responder não é essa. É: “essa relação me dá segurança para ser livre, ou segurança para não fugir?” Essa resposta, sim, diz a verdade sobre o que vocês têm.
Severino Angelino é Psicanalista, Bel. em Direito, Escritor e Graduando em Fonoaudiologia. Autor de ‘O Abismo Invisível: Depressão’ – Um olhar sobre a depressão na adolescência e a importância do apoio familiar.
*Este texto reflete a visão pessoal do autor.




