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Quando não entender vira opinião: os limites do diálogo na era da leitura apressada

Por Severino Angelino – Psicanalista

Outro dia recebi uma mensagem de um leitor discordando, com muita firmeza, de uma ideia que eu nunca defendi. Ele tinha lido o texto rápido, entendido errado e, mesmo assim, formado uma opinião fechada sobre aquilo. Não creio que tenha sido má-fé. Foi pressa: a pressa de opinar sobre algo que ainda não havia sido compreendido de verdade. E esse tipo de situação, cada vez mais comum, é o assunto deste texto.

Vivemos rodeados de opiniões formadas antes da leitura terminar. Alguém lê o título, talvez o primeiro parágrafo, e já sabe exatamente o que pensa sobre aquilo, inclusive sobre partes do texto que nunca chegou a ver. Isso não é exagero nem implicância de quem escreve para jornal. É um fenômeno que tem nome: analfabetismo funcional. No Brasil, pesquisas indicam que uma parcela considerável da população lê palavras, junta frases, mas não consegue reconstruir o sentido do que está diante dos olhos. A pessoa decodifica sem compreender. E aí opina sobre o que não entendeu, com a mesma segurança de quem entendeu tudo.

Como psicanalista, o que mais me interessa nisso não é o dado educacional, embora ele seja grave. É o que essa pressa revela sobre o nosso modo de estar no mundo. Porque não é só um problema de escola malfeita ou de política pública fracassada, embora também seja isso. É um sintoma de época. Vivemos em tempo de resposta imediata. Quem demora para reagir parece estar perdendo alguma coisa. E, quando a velocidade vira valor, a compreensão vira sacrifício. Ninguém tem tempo de entender; todo mundo tem pressa de concordar ou discordar.

Há algo curioso nesse comportamento: a certeza cresce exatamente onde a compreensão diminui. Quanto menos a pessoa entendeu, mais categórica ela se torna. Isso não é coincidência, é defesa. Admitir que não entendemos algo exige tolerar um vazio, uma dúvida, um “não sei”. E tolerar dúvida é, para muita gente, insuportável. É mais fácil (e mais rápido) preencher esse vazio com uma opinião pronta do que sentar com o desconforto de não ter entendido. A opinião, nesse caso, não nasce do pensamento. Nasce da ansiedade de não ficar sem resposta.

Isso tem um custo enorme para o diálogo. Diálogo pressupõe dois movimentos: escutar o outro e revisar a própria posição diante do que foi escutado. Quando alguém já chega com a conclusão pronta, formada a partir de uma leitura pela metade, não há mais espaço para revisão nenhuma. A conversa deixa de ser encontro e vira dois monólogos que se cruzam sem se tocar. Cada um fala para confirmar o que já pensava, e a discordância, em vez de gerar pensamento, gera apenas ruído.

E o pior: quem tenta corrigir o mal-entendido costuma ser tratado como se estivesse fugindo do debate, como se “explicar de novo” fosse sinônimo de covardia ou de manipulação. Isso cria um paradoxo cruel, quem leu com cuidado e quer esclarecer parece estar em desvantagem diante de quem leu rápido e grita mais alto. A qualidade da leitura deixou de ser critério de autoridade. Ganha quem se impõe primeiro, não quem compreendeu melhor.

Não tenho a pretensão de resolver, num texto de jornal, um problema que envolve educação, tecnologia e formação de hábitos ao longo de gerações. Mas talvez valha a pena propor algo mais modesto: recuperar o valor da dúvida antes da certeza. Perguntar “entendi direito?” antes de discordar. Aceitar que uma segunda leitura não é fraqueza, é responsabilidade. E, sobretudo, desconfiar um pouco da própria pressa, porque é justamente nela que mora boa parte dos mal-entendidos que hoje chamamos, erradamente, de debate.

No fim, talvez o convite seja simples, ainda que difícil de praticar: ler devagar num mundo que exige respostas rápidas é um pequeno ato de resistência. E, quem sabe, o único caminho real de volta ao diálogo.

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