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PF investiga Flávio Bolsonaro por suspeitas ligadas ao financiamento de “Dark Horse”

Inquérito no STF apura possível corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas em operações relacionadas ao filme sobre Jair Bolsonaro

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) passou a ser alvo de uma investigação da Polícia Federal que apura possíveis irregularidades na captação de recursos para “Dark Horse”, produção cinematográfica sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. O inquérito tramita no Supremo Tribunal Federal (STF), sob sigilo, e investiga suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas, além de outros possíveis crimes que possam surgir durante as diligências.

A apuração foi autorizada pelo ministro André Mendonça em 22 de julho, depois de a PF solicitar a abertura do inquérito e a Procuradoria-Geral da República (PGR) manifestar-se favoravelmente. A investigação foi formalmente instaurada pela Polícia Federal no dia seguinte.

O caso surgiu a partir da análise de materiais apreendidos no celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Segundo os investigadores, mensagens, registros de ligações e informações sobre encontros indicam que Flávio teria participado diretamente das negociações para obter e cobrar recursos destinados ao filme.

A PF apresentou o pedido de investigação em 8 de julho. No documento encaminhado ao STF, apontou a existência de elementos que justificariam o aprofundamento de suspeitas envolvendo lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção, mencionando a possível participação do senador.

O procurador-geral da República, Paulo Gonet, deu parecer favorável em 21 de julho. Para ele, havia “indícios consistentes” que justificavam a apuração de possíveis crimes como corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

Investigação mira origem e circulação dos recursosUm dos eixos da apuração é descobrir como o dinheiro destinado à produção foi obtido, movimentado e transferido para o exterior.

A suspeita de lavagem de dinheiro envolve a possibilidade de utilização de empresas e de um fundo fora do Brasil para ocultar ou dissimular a origem, a movimentação ou o destino dos valores.

Já a investigação sobre evasão de divisas busca esclarecer se houve remessas internacionais acompanhadas de informações falsas, utilização de intermediários, ausência de identificação adequada dos beneficiários finais ou divergências entre a finalidade declarada e a efetivamente atribuída aos recursos.

Na frente relacionada à corrupção, a PF pretende verificar se os aportes foram solicitados, prometidos, oferecidos ou recebidos em razão da função pública exercida por algum dos envolvidos ou como contrapartida por eventual vantagem indevida.

A representação policial também menciona, de forma preliminar, a possibilidade de organização criminosa e outros delitos que eventualmente sejam identificados no decorrer da investigação.

O objetivo da apuração é justamente verificar se os indícios reunidos até agora se confirmam e identificar a eventual responsabilidade de cada envolvido.

Mensagens apontam atuação direta de Flávio

A participação de Flávio nas tratativas com Vorcaro ocupa parte relevante da representação apresentada pela Polícia Federal.

Segundo os investigadores, os dados extraídos do celular do banqueiro mostram contatos diretos entre os dois e indicam que o senador teria acompanhado as negociações, cobrado pagamentos e tratado pessoalmente de questões relacionadas à produção.

Os primeiros registros destacados pela PF remontam a dezembro de 2024. Naquele mês, Thiago Miranda Silva procurou Vorcaro para marcar uma reunião com Flávio e informou que um dos assuntos seria o “filme do presidente”. O encontro foi marcado para 11 de dezembro. O deputado Mário Frias (PL-SP), apontado como idealizador do projeto, também participaria da reunião.

Em janeiro de 2025, surgem registros de cobranças relacionadas ao primeiro aporte. A partir de agosto, conforme a PF, os contatos passam a ocorrer diretamente entre Flávio e Vorcaro.

Em 20 de agosto, os dois teriam combinado um encontro presencial. Vorcaro informou o horário, e Flávio respondeu que estava “a caminho”.

Ligação com Vorcaro ocorreu no mesmo dia de remessa aos EUA

Um dos episódios considerados relevantes pela investigação ocorreu em setembro de 2025.

No dia 8 daquele mês, Flávio enviou um áudio a Vorcaro cobrando pagamentos relacionados ao filme. Na mensagem, segundo a PF, o senador demonstrava preocupação com o risco de inadimplência da produção perante o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh.

Vorcaro respondeu pedindo desculpas e afirmou que tentaria solucionar a situação.

Dias depois, Thiago Miranda comunicou ao banqueiro que Flávio pretendia encontrá-lo pessoalmente para apresentar o material que estava sendo gravado.

Em 16 de setembro, Flávio e Vorcaro mantiveram uma ligação. Na mesma data, segundo a análise da PF, ocorreu a última remessa identificada da Entre Investimentos para o Havengate Development Fund, sediado nos Estados Unidos e utilizado no financiamento de “Dark Horse”.

A proximidade temporal chamou a atenção dos investigadores, mas a própria análise não permite concluir, isoladamente, que a ligação tenha provocado ou determinado a transferência.

Ao todo, a PF identificou US$ 12,33 milhões enviados pela Entre Investimentos ao Havengate durante 2025. Nas comunicações encontradas no aparelho de Vorcaro, porém, aparece um acordo que previa investimento total de US$ 24 milhões. As parcelas estabelecidas no documento apresentavam valores semelhantes aos identificados nas transferências internacionais.

Senador voltou a cobrar banqueiro

Os contatos entre Flávio e Vorcaro continuaram nos meses seguintes.

Em outubro, o senador voltou a pressionar pela liberação dos recursos e afirmou que a produção estava “no limite”. Segundo a investigação, Flávio disse que, caso Vorcaro não pudesse realizar o pagamento, deveria avisá-lo para que fosse buscada outra alternativa com urgência.

Na mesma ocasião, o senador convidou o banqueiro para um jantar com o ator principal e o diretor da produção.

Em 7 de novembro, Flávio encaminhou um vídeo a Vorcaro e afirmou, de acordo com a PF, que aquela produção só estava acontecendo graças à ajuda do banqueiro.

O último contato destacado pelos investigadores ocorreu em 16 de novembro de 2025, na véspera da prisão de Vorcaro. Flávio tentou ligar para o empresário e, depois, enviou uma mensagem na qual dizia: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”.

Ao analisar o episódio, Paulo Gonet apontou a possibilidade de Vorcaro ter obtido uma eventual “promessa de apoio ou interferências do próprio Senador”. O procurador-geral, entretanto, ressaltou que ainda seria necessário identificar algum ato praticado por Flávio no exercício do mandato que pudesse estabelecer uma conexão entre o financiamento e sua atuação parlamentar.

PGR quer investigar eventual relação com Banco Master

Diante dessa possibilidade, a PGR solicitou que fossem levantados projetos e propostas legislativas apresentados ou apoiados por Flávio que pudessem ter interesse para o Banco Master, empresas relacionadas à instituição ou para o próprio Vorcaro.Gonet também pediu uma busca aprofundada nos celulares e computadores apreendidos pela PF no caso Master e em investigações correlatas, com o objetivo de localizar novos registros envolvendo o senador.

Até o momento, os documentos conhecidos não apontam um ato parlamentar específico praticado por Flávio em benefício de Vorcaro. A identificação ou não dessa eventual contrapartida está entre os pontos que o inquérito deverá esclarecer.

Para a Polícia Federal, entretanto, os elementos já obtidos vão além de simples menções ao nome do senador. Os investigadores o descrevem como “interlocutor direto” de Vorcaro nas negociações relacionadas ao financiamento, destacando cobranças, reuniões e o acompanhamento da produção.

A investigação pretende, portanto, reconstruir a participação de Flávio na estruturação dos aportes, nas cobranças pelos pagamentos, na execução do financiamento e na destinação dos recursos.

Flávio nega irregularidades

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