A Polícia Federal encontrou indícios de que documentos relacionados às investigações sobre a produção de Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro, foram criados ou modificados depois que as apurações já estavam em andamento. A informação consta da decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou a nova fase da investigação, deflagrada nesta quinta-feira (10).
Os sinais apareceram durante auditorias realizadas após a primeira operação, conduzida pela Polícia Civil de São Paulo em junho. Ao analisar o material apreendido e confrontá-lo com informações obtidas posteriormente, os investigadores identificaram arquivos eletrônicos, diferentes versões de documentos, registros de edição, comunicações e dados armazenados em nuvem que teriam surgido depois daquela diligência.
Segundo Dino, parte relevante do material procurado na nova etapa não existia ou ainda não era conhecida pelos investigadores quando as buscas de junho foram realizadas. A cronologia dos arquivos passou, assim, a ser um dos pontos centrais da apuração.
O ministro também apontou um “fundado receio” de que provas digitais e registros contábeis pudessem ser ocultados, modificados ou destruídos. A avaliação serviu de fundamento para a adoção rápida de novas medidas de busca e apreensão.
A PF ainda não atribuiu publicamente a autoria das possíveis alterações. Também não está estabelecido se os arquivos foram modificados para encobrir irregularidades, justificar operações já realizadas ou simplesmente complementar posteriormente a documentação. Essas são questões que a investigação busca esclarecer.
Um elemento importante para essa reconstrução foi a decisão de Dino de ampliar o acesso da Polícia Federal ao material recolhido pela Polícia Civil paulista. Os investigadores passaram a analisar não apenas os documentos selecionados na primeira operação, mas também os dados brutos extraídos de equipamentos eletrônicos, relatórios policiais e registros da cadeia de custódia.
Com isso, a PF conseguiu comparar o conteúdo originalmente apreendido com versões e informações que apareceram posteriormente. A análise permite verificar quando determinados arquivos foram criados, quem teve acesso a eles e se houve alterações depois que os investigados já tinham conhecimento das apurações.
A investigação ocorre paralelamente à análise de cerca de 25 mil páginas entregues à PF pela produtora Karina Ferreira da Gama, responsável pela produção brasileira de Dark Horse. O material reúne contratos, documentos financeiros e informações sobre os gastos relacionados ao filme.
Esses registros também deverão ser confrontados com os demais elementos reunidos pelos investigadores. O objetivo é reconstruir o caminho dos recursos e verificar a compatibilidade entre os contratos, os pagamentos, os serviços declarados e a documentação apresentada posteriormente.
A suspeita de manipulação documental ganha relevância justamente nesse contexto. Caso seja comprovado que determinados registros foram produzidos ou alterados depois do início das investigações, a PF poderá avaliar se houve uma tentativa de reconstruir posteriormente a documentação de operações que já estavam sob escrutínio das autoridades.
Por enquanto, porém, essa possibilidade permanece no campo das hipóteses investigativas. Não há conclusão pública sobre quem teria realizado as alterações, quando exatamente elas ocorreram ou qual finalidade tiveram.
A nova fase da apuração busca justamente responder a essas perguntas. Mais do que localizar novos documentos, os investigadores tentam reconstruir a história de cada arquivo: quando surgiu, quem o produziu, se sofreu modificações e qual relação mantém com as transações e contratos investigados.




