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[Parte 4] O Visconde de Stella Maris Versus os Ternos Cortadores de Concreto – uma novela jatiucana

A partir daí, O Visconde todo dia passava horas e horas fazendo vistorias nas ruas de Stella Maris. Ele ia na padaria, na mercearia e nos demais estabelecimentos que terminavam em ‘ia’, só depois ia nos estabelecimentos com diferente terminação.

A principal reclamação era: Segurança. Stella Maris aos poucos perdera aquela sensação de tranquilidade manguezal, onde as crianças recém trazidas pelas outrora gaivotas podiam correr pela praça até o matagal.

O problema é que no presente era diferente. Eu juro, eu vi o Lobo Mau! Dizia um miúdo cruzando seus dedinhos piquitititos, gordinhos e de unhas roídas.

“Lobo Mau? Agora você está oficialmente plagiando história alheia”. Calma, calma, não faço por maldade. Além disso, se você parar para pensar, a humanidade conta a mesma estória por toda a eternidade…

O “Lobo Mau” tinha um nome: Péu Pedófilo. Nome famoso. Nove em dez muros do Stella Maris publicizavam dizeres sobre o pérfido vilão: Aqui passou

Péu Pedófilo ou Péu Pedófilo vai te pegar! ou Ô Ô Ô ÔÔÔ, PÉU É O TERROR!Péu Pedófilo era um lenda, um ser a ser temido. Os jornais dedicavam páginas e páginas ao seu comportamento facínora. Os padres rezavam missas e missas pedindo por uma intervenção divina. Os carnavalescos transformavam cada novo ato em excêntrica marchinha.

Companheirada! Mais uma vez a AMSM mostra a sua incapacidade de resolver os problemas de nossa morada. Mas não temam, não temam! Eu resolverei. Pegarei Péu Pedófilo pelo pescoço e direi: Você larga o osso! Pegarei Péu Pedófilo pelo cangote e direi: Daqui você se poque! Pegarei Péu Pedófilo pela nuca e direi: Acabou pra tu, seu filho da p…

E o Visconde não terminou a frase, pois percebeu os olhares horrorizados das mulheres com bebês no colo olhando para ele de forma hipnotizada.De qualquer forma, o discurso incendiou aqueles que o escutavam.É Nosso herói ói ói ói. É nosso herói ói ói ói. Cantavam sem criatividade ou afinação.

Varando madrugadas, por Péu Pedófilo, O Visconde procurava. Até que em uma de suas empreitadas, avistou de longe, uma figura deformada.

Alto lá! Quem está aí nas sombras? E nada de resposta. Responda homem, que eu consigo te ver daqui! E nada de resposta. Impaciente, O Visconde se aproximou, e ao pôr seus olhos em estranha criatura, nosso herói se impactou.

Uma raposa?! Uma raposa por aqui? (Sim, uma raposa, pobre, xoxa e infeliz). Diga-me raposa, o que fazes por aqui? Nada, meu bom homem, procuro apenas um bom canto pra dormir. És tu o monstro Péu Pedófilo, que nos aterroriza, e deixa nossa vida por um triz? Sim, sou eu este que tu falas, mas acredite, mal algum eu nunca fiz. E o que estás então fazendo por aqui, por que não voltas para casa? Minha casa? A mata…. Meu senhor ela sumiu, e eu nunca mais a vi. E um amigo, um parente, alguém que tu sentes, e que sente tua falta? Eu tive uma amiga, que um dia, andando pelo Centro, foi morta a pauladas….E o que eu posso fazer por ti? Meu bom homem, me arrume algum trocado, que eu me escapulo por aí.

O Visconde pegou os trocados que tinha no bolso, o relógio de bolso, o relógio de pulso, as voltas, os anéis e todos os apetrechos e bugigangas que carregava e que serviam apenas para distanciá-lo da lembrança de Ab’ kuh kum e entregou para a raposa.

Obrigado, meu bom homem.

Enquanto O Visconde se afastava, ouviu a raposa cantarolando

Ó, minha bela amiga, razão de meu doce espanto. Eu sei que em algum dia. Há o dia em que eu te encontro. Nesta vida, n’outra vida, na mata dos meus sonhos.

[continua…]

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