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[Parte 3] O Visconde de Stella Maris Versus os Ternos Cortadores de Concreto – uma novela jatiucana

Tengo una propuesta para ti!Apois, então diga aí…Calles, Calles, Calles!

O Visconde, de coração bom, mas inocente, achou que o Cisplatino pediu para que ele se calasse, ele assim o fez. Depois de longos minutos com ambos em silêncio, o Cisplantino levantou os dois polegares e hablou sí? sí? E O Visconde respondeu sí, sí, e depois foi dormir.

Quando ele acordou, a paisagem estava mudada, e que susto O Visconde tomou! Um monte de ruas cortava o mangue, que espirrava sangue para tudo que é lado. Os guaiamuns, coitados, gritavam desesperados por causa do seu habitat devastado.

O Visconde, com a gritaria, atordoado, encontrou o Cisplantino segurando uma régua T e usando um cap de operário.

Cabra safado, o que você fez?Calle! Calle! Calle!Homi, se cale você!

E O Visconde rodopiou e rodopiou e rodopiou e bateu as mãos, e aí o Vento Nordeste levou o Cisplatino estranho para algum canto do horizonte.

Porém o estrago estava feito. Ruas. Casas. Praças. Igrejinha e Xop’s Center. Coisas e mais coisas começavam a surgir no mangue, que passou a se chamar Stella Maris, nome dado pelo Homem do Xop’s Center.

Os guaiamuns, os siris e os demais seres do mangue ficaram cada vez mais ilhados entre aquelas retas de concreto. Pouco a pouco foram tombando, e, em um tom de lamento, trovaram a’O Visconde: Tu, Tornado do Nordeste, Titã dos Ventos, nos salve desta Tragédia trágica e torpe.

Mas o Visconde, atordoado, não sabia o que fazer, e, sendo franco, estava todo não me toque. Até que de tanto ouvir as súplicas dos guaiamuns, veio em sua mente a lembrança de Ab’ kuh kum.

O Visconde de Stella Maris, o guaiamum escolhido, o salvador de Ab’ kuh kum lembrou de tudo que acontecerá antes de chegar em Massayó. Se alembrou da tempestade. Se alembrou da benzedeira, dos Espíritos da Natureza.

E jogou suas mãos ao céu e cantou Espíritos da Natureza, do Mundo, sua realeza, criadores da feiura e da beleza, ouçam minha prece, pois sou eu, o que antes foi Rak’um, e agora Senhor do Vento Nordeste.

E os Espíritos da Natureza, em sua uno consciência, de uma névoa apareceram, e com uma voz em estranha harmonia, entoaram: Bixo, é tu de novo, é? Cabra inconveniente da po…

Preciso de vossa ajuda. Não. Não? Não. Por que não? Não tamos a fim. Mas não é só algo para mim. E daí? Daí que os guaiamuns de Ab’ kuh kum precisam de salvação. De novo? Toda hora isso também. Vai lá, só mais uma vez, o que é que de mal tem?

Os Espíritos da Natureza se sensibilizaram (e ficaram genuinamente impressionados com a astúcia d’O Visconde). Todavia, Eles não podiam impedir as calles de serem construídas. A solução seguida foi fazer com todos os seres do mangue o que outrora fizeram com Rak’um. Assim, um a um, os seres do mangue se tornaram homens (e mulheres, e todas as possibilidades deste arco-íris). E viraram moradores do Stella Maris, frequentando a Igrejinha e comprando no Xop’s Center.

O Visconde ficou, com o resultado, satisfeito. O que está feito está feito, falava estufando o peito. Agora, os seres do mangue poderiam aproveitar Stella Maris por inteiro, daquela bola de gelo vendida no Xop’s até a música pop que tocava na Igrejinha do Padre Bob — que não tinha o nome ‘Bob’ — na verdade era um nome estilo daqueles antigos, como Bartolomeu, Agenor ou Ribamar, e aí fica muito difícil de rimar.

Mas nem tudo eram flores, os novos humanos, antigos seres do mangue, em Stella Maris, não tinham acesso a todas as cores. Mas nem tudo era paz e harmonia, por exemplo, na padaria da Dona Maria, os Homens das Calles tinham acesso ao trigo novo, doce e temperado, enquanto os outros a um pão velho, duro e surrado.

Os Homens do Mangue — após a transformação assim eles foram chamados, mas nem sempre, sempre era assim, às vezes eram chamados de outra formas, algumas boas e outras não — foram reclamar com O Visconde a respeito da questão do pão.

Camarada (eles aprenderam esse tratamento em algum momento difícil de precisar) dos Ventos, Herói de Ab’ kuh kum, comer pão velho não dá!E o que eu posso fazer para mudar?Vai ter eleição para AMSM — Associação dos Moradores do Stella Maris. Se candidate, vá!

O Visconde se animou com a ideia de ser presidente da AMSM. Sob o slogan: QUER PÃO NOVO? POIS É N’EU QUE CÊ VAI VOTAR, começou uma forte campanha eleitoral por toda Stella Maris. Seu coordenador de campanha era o Ancião, seu marqueteiro era o Homem Sabido, o antigo siri sabido, e os —panfletadores — as outrora gaivotas.

Mas olha, pense em uma campanha linda! O Visconde discursava e a plateia chorava. O Visconde bradava e a plateia se animava. Essa eleição é nossa! Sorria em alegria.

Quando as urnas foram abertas, o resultado: chapa 01 — Compromisso e Tradição — 286 votos; chapa 02 — RENOVA AMSM — 131 votos… O Visconde fora derrotado…

Mas vocês pensam que O Visconde se abalou com a derrota? Sim, a princípio, sim. Nas primeiras semanas após o resultado, O Visconde ficou todo ranzinza. Era possível escutá-lo pela rua falando Ingratos! Nunca mais eu me candidato de novo! Stella Maris não me merece!

Mas depois de um tempo ele se acalmou, e passou a liderar o grupo de oposição da então gestão da AMSM.

[continua]

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