A benzedeira, em um ato de coragem, jogou a suas mãos aos céus e gritou: Espíritos da Natureza, tenham de nós piedade, cessem tal tormenta, impeçam a catástrofe.
E os Espíritos: Mas somos nós quem a fazemos, seremos nós os responsáveis. A benzedeira, surpresa, perguntou: E por que nos condenam com uma tempestade? E os Espíritos: Ahh, foi que deu vontade.
E não podemos fazer nada que mude vossa opinião? Não. Tem certeza? Sim. Certeza certeza? Sim, certeza. Deve ter algo…
E os Espíritos pensaram, pensaram tanto que fundiram suas consciências e um só Ser se tornaram. E esse Ser falou a benzedeira:
Tu, órcaulo de Ab’kuh kum, nos sensibilizaram. Entretanto, a tempestade é – e sempre é – inevitável. Contudo, sim, há algo.
O que, nobre Ser? Questionou a benzedeira. Ache Rak’um, o guaiamum escolhido, e reze uma prece para ele na primeira hora da manhã. Ele será o escolhido para salvar os residentes de Ab’kuh kum.
A benzedeira saiu na sua jornada rezando para todos os guaiamuns que encontrava até que um dia aconteceu. Rak’um, após a benção, homem se tornou, e numa jangada de jacarandá (sim, é aqui que ela aparece) partiu ao lado de todos os animais de Ab’ kuh kum rumo ao continente antes que a tempestade os atingissem. As terras que desceram, sim, Massayó.
Quando ela terminou de contar achei um tanto exagerada, mas sem dúvidas mais acreditável que a história insossa dos homens de teses, então decidi adotá-la como uma das muitas versões do surgimento d’O Visconde de Stella Maris.
Deixemos de lado a neblina que cobre as origens do grande Visconde de Stella Maris, Senhor dos Manguezais, Herói da parte baixa da cidade da Massayó. Suas façanhas, que tanto emocionam — e que foram fielmente registradas em conversas ao redor de fogueiras — é a motivação destas linhas. Pois, para as glórias d’O Visconde, um desejo: se espalhem, se espalhem!
Quando O Visconde de Stella Maris desceu em novo solo, não sentiu uma novidade. Lá foi mangue, aqui é mangue, lá foi carne, aqui é carne.
Ele estava em casa. Os guaiamuns da Massayó receberam os retirantes com a famosa hospitalidade dos crustáceos. As gaivotas, alegres, davam cambalhotas, os caranguejos brincavam de fugir do balançar das ondas do mar. E à noite todos os seres se reuniam no Sítio do Ancião, onde morava um Ancião que adorava jogar gamão.
O Visconde admirava-se com o novo jogo que descobrira em Massayó. Que jogo maravilhoso! Que terra gloriosa! Tudo aqui funciona, nada falta nem nada sobra.
Mas nem tudo era risada. Que calor da desgraça, o Ancião comentava. Mas nem tudo eram flores. Que calor dos horrores, os guaiamuns — os de lá e os de cá — reclamavam.
Sensibilizado, e suado, aliás, completamente encharcado de suor, O Visconde tomou para si a tarefa de pôr um fim em tanto calor. Após a última partida de gamão, na qual ele perdeu vergonhosamente para um siri muito sabido, O Visconde levantou-se da cadeira e rodopiou e rodopiou e rodopiou enquanto cantava vuuúÚÚÚúúúuu, sai pra lá calor da peste!
E o Visconde bateu as mãos e se fez o Vento Nordeste, que faz toda noite vuuúÚÚÚúúúuu, vuuúÚÚÚúúúuu, vuuúÚÚÚúúúuu assustando todas as crianças da parte baixa da Massayó.
Quando os seres do mangue sentiram aquele arrepiozinho gostoso subindo no cangote, pensaram rapaz, esse cabra é desenrolado mesmo. A partir daí O Visconde estava feito, ganhou fama e ficou cheio de pompas.
A fama d’O Visconde atraiu gente de tudo que é canto do horizonte. Dentre eles, um Cisplatino estranho, que tinha cabelo encaracolado e falava enrolado.Usted és el famoso Señor de Los Vientos? E O Visconde não entendeu, mas disse maromenos.
Usted trajo el desarrollo aqui? E O Visconde novamente não entendeu, mas disse sí! Tinha aprendido essa palavra com o sabido siri, o mesmo que o vencera no gamão.
Tengo una propuesta para ti!
[continua…]




