É certo que não se sabe, ou, talvez, não se saiba ao certo as origens d’O Visconde de Stella Maris, Senhor dos Manguezais, Herói da parte baixa da cidade da Massayó.
Em sincero, também não se conhece a pessoa, ou as pessoas, ou demais seres, que concederam a ele o título de Visconde, tampouco se foi certo.
Decerto, foram entes responsáveis! E com autoridade legal, recebida de alguma autoridade legal, para tornar O Visconde Visconde.
Mas por que Visconde? Você deve estar se perguntando. Por que não Barão, Lorde ou Conde? Questão legítima, eu diria, mas não vou dizer, como não irei responder, pelo simples motivo de desconhecer a resposta.
Todavia, mentiria eu se hablasse que tamanha honraria concedida a’O Visconde fosse a única coisa que seu passado esconde.
Por onde andava O Visconde antes de se tornar Visconde? Quem são seus Pais? Suas Mães? Seus Concunhados? Seus Ex-Cônjuges e Amantes?
Afirmam, uns, e alguns outros, que O Visconde brotou do mangue, e isso até pode ser verdadeiro, pois ele lembra um pouco de um mangue-branco, algo do mangue-preto e uma pitada do vermelho.
Outros (ao meu juízo um bando de invejosos), do alto de seus artigos urram “Nada disso!”, O Visconde de Stella Maris nasceu em uma jangada de jacarandá. E de comecinho, já órfão de pai e mãe. Tão cedo a Deus dará.
Esses tribunos do romance social, obsessivistas da historiografia, tarados do registro documental. Ficam procurando notícias em revista ou jornal que comprovem sua teoria.
O Visconde, amigos, é o Senhor do Mangue, então ele só pode ter surgido do Mangue. Ora essa! Quem Já viu alguém ser Senhor de lugar que não é o seu?
Prova tamanha que O Visconde é fruto dos manguezais é a sua capacidade de falar com os animais que por ali passeiam.
E O Visconde falam um um e os guaiamuns respondem uhum. E O Visconde cochicha ri ri e os siris retornam sí sí, que eles aprenderam com um porteño rabugiento que andava por lá.
E quando O Visconde conta uma anedota, as gaivotas retrucam que lorota e todos caem em gargalhada. E é por isso que O Visconde só conta anedotas para as gaivotas quando elas estão em terra.
Anos atrás, uma mulher me confidenciou uma história que lera em um tabloide que narrava as origens d’O Visconde de Stella Maris.
A História começa além-mares compartilhou comigo, mas não em cima de jacarandá (ela também não gostava da versão dos romancistas). Em uma ilha chamada Ab’kuh kum, que parece Fernando de Noronha, mas é mais bonita e menos comportada.
E significa Lar dos Guaiamuns. Assim em Ab’kuh kum moravam siris, gaivotas e uma benzedeira, além, é claro, dos guaiamuns.
Um dia, a benzedeira em um sonho escutou uma profecia. Ab’kuh kum seria destruída por uma grande tempestade.A benzedeira, em um ato de coragem, jogou a suas mãos aos céus e gritou: Espíritos da Natureza, tenham de nós piedade, cessem tal tormenta, impeçam a catástrofe.
[Continua…]




