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O mal-estar na civilização hoje: o que Freud já anunciava sobre o preço da vida em coletivo

Por Severino Angelino – Psicanalista

Recebi um paciente há algumas semanas que resumiu, sem saber, um século de teoria psicanalítica numa frase só. Disse ele: “Eu tenho tudo que deveria me fazer feliz, e mesmo assim sinto que estou sufocando.” Não é frase original. Ouço variações dela quase toda semana, no consultório, de pessoas muito diferentes entre si. Mas foi Freud, em 1930, que colocou essa sensação num livro e lhe deu nome preciso: mal-estar na civilização.

Resumindo com a brutalidade que todo resumo exige: vivemos em sociedade porque precisamos uns dos outros, para sobreviver e para amar. Só que essa convivência cobra um preço. Para que a vida coletiva funcione, é preciso abrir mão de boa parte dos impulsos que trazemos de fábrica, a agressividade, o desejo irrestrito, a busca imediata de prazer. A civilização nos protege da natureza e dos outros. Em troca, cobra um pedágio pago em culpa, em repressão, numa inquietação que nunca some de vez. Não existe civilização sem sacrifício pulsional. E sacrifício pulsional, cedo ou tarde, vira sofrimento psíquico. A conta que Freud fez há quase cem anos ainda fecha.

O que mudou, então? Na superfície, quase tudo. No fundo, pouca coisa. Freud escrevia num mundo de repressão sexual explícita, moral religiosa, vergonha declarada. Hoje a repressão trocou de roupa. Já não proíbem o prazer, pelo contrário, ele virou obrigação. É preciso ser feliz, aproveitar, ostentar uma vida plena nas redes. E quando isso não acontece, a culpa deixou de ser de uma sociedade puritana que reprimia o desejo. Agora a culpa é sua, porque você não soube “se cuidar” direito. Trocamos a repressão do desejo pela tirania de sua encenação. O efeito clínico, no consultório, é parecido: ansiedade, exaustão, uma sensação difusa de estar sempre devendo algo a alguém, sem saber bem o quê.

Tem um ponto do texto de Freud que, para mim, ficou mais atual do que era na época em que foi escrito. Ele trata a agressividade como algo constitutivo do humano, algo que a civilização precisa desviar, sublimar, reprimir, para que a convivência seja possível. E o que vejo hoje é uma sociedade que achou um canal quase perfeito de escoar essa agressividade sem encarar de frente. As redes sociais. Ali a hostilidade circula solta, disfarçada de opinião, de indignação legítima, às vezes até de humor. Ninguém precisa admitir crueldade, porque a tela cria uma distância cômoda entre o gesto e sua consequência. Não inventamos uma agressividade nova. Só achamos um jeito mais eficiente de descartá-la sem culpa, essa é minha leitura, não uma frase de Freud.

Penso bastante, na clínica, sobre esse superego coletivo que as redes ajudaram a fortalecer. Freud já descrevia o superego como a instância que internaliza as exigências da cultura e depois as usa contra o próprio sujeito, de um jeito quase sempre mais duro do que qualquer autoridade externa jamais foi. Só que hoje esse superego ganhou plateia. A cobrança deixou de ser só interna: ela é pública, comparada, medida em curtida e seguidor. O julgamento que antes ficava restrito à consciência de cada um agora se espalha e se realimenta em tempo real. Multiplicamos os juízes internos que cada pessoa carrega.

Não escrevo isso pedindo que abandonemos a vida em sociedade e voltemos a um estado de natureza que, aliás, nunca existiu fora da fantasia. Freud não achava isso possível, nem desejável. Para ele, a alternativa à civilização não é liberdade plena. É barbárie. O que ele propunha, e ainda me parece a saída mais honesta, é encarar o mal-estar sem tentar arrancá-lo à força. Aceitar que uma dose de frustração é o preço de não estarmos sozinhos no mundo. E que uma vida sem atrito, sem culpa, sem limite nenhum, é promessa que pílula, aplicativo ou discurso de autoajuda não cumprem.

Talvez falte, hoje, menos liberdade e mais tolerância ao desconforto que a vida em comum sempre vai produzir. Freud não prometia cura para esse mal-estar. Prometia só que entendê-lo já ajudava a sofrer um pouco menos com ele.

Ainda ajuda.

Severino Angelino é Psicanalista, Bel. em Direito, Escritor e Graduando em Fonoaudiologia. Autor de ‘O Abismo Invisível: Depressão’ – Um olhar sobre a depressão na adolescência e a importância do apoio familiar.

*Este texto reflete a visão pessoal do autor.

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