Permanência do Brasil fora do Mapa da Fome evidencia que crescimento econômico e justiça social precisam caminhar juntos.
Antes de tudo, é preciso reconhecer uma verdade incômoda: crescimento econômico, por si só, não é sinônimo de desenvolvimento. Um país pode produzir mais, exportar mais e melhorar diversos indicadores macroeconômicos. Tudo isso é importante e desejável. Mas, se milhões de pessoas ainda não têm assegurado o direito mais básico de todos — o direito à alimentação —, esse sucesso perde parte de seu significado.
Ninguém pode ser privado do direito de comer. Esse é um princípio que deveria estar acima de qualquer disputa política. Saber que milhões de brasileiros voltaram a ter esse direito respeitado é, para mim, motivo suficiente para reconhecer o valor de um projeto de governo. Todas as demais conquistas — inflação sob controle, geração de empregos, crescimento da renda, a busca por maior justiça tributária e investimentos em educação, cultura, ciência e infraestrutura — têm seu valor. Nenhuma delas, porém, supera o êxito no combate à fome, resultado de uma política de Estado que marcou os governos do Partido dos Trabalhadores
E foi justamente nesse aspecto mais elementar da existência humana que o Brasil voltou a registrar um avanço expressivo. O relatório divulgado nesta terça-feira (21) pela Organização das Nações Unidas confirma que o país permanece fora do Mapa da Fome pelo segundo ano consecutivo e alcançou o menor índice de insegurança alimentar severa de sua história recente: apenas 0,6% da população.
O dado mais eloquente do levantamento é que cerca de 16,7 milhões de brasileiros deixaram a condição de insegurança alimentar severa no triênio compreendido entre 2023 e 2025. Não se trata apenas de uma melhora estatística. São milhões de pessoas que recuperaram a possibilidade de fazer três refeições por dia, de viver com mais dignidade e de enxergar um futuro menos marcado pela privação.

A trajetória recente mostra o tamanho dessa conquista. O Brasil havia deixado o Mapa da Fome em 2014, mas voltou a integrar a lista após o agravamento da insegurança alimentar registrado entre 2018 e 2020. Agora, pelo segundo ano consecutivo, a ONU confirma que o percentual da população em risco de subalimentação permanece abaixo de 2,5%, limite utilizado internacionalmente para classificar os países fora do Mapa da Fome.
Os avanços aparecem também em outros indicadores. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o custo diário de uma dieta saudável no Brasil é de US$ 4,89 por pessoa, em Paridade do Poder de Compra, abaixo da média da América do Sul (US$ 4,94) e da América Latina e do Caribe (US$ 4,91). Para chegar a esses números, a FAO considera fatores como renda da população, perfil demográfico, tamanho da população e o custo médio de uma cesta de alimentos saudável.
O cenário brasileiro acompanha uma tendência mundial de redução da fome, embora o desafio continue gigantesco. Em 2025, 7,8% da população do planeta enfrentou a fome, percentual inferior aos 8,1% registrados em 2024 e aos 8,6% de 2022. Ainda assim, aproximadamente 645 milhões de pessoas continuaram vivendo essa realidade no triênio encerrado em 2025.
No caso do Brasil, é preciso reconhecer que as conquistas ainda não são suficientes. Os críticos podem apontar problemas reais da economia, cobrar maior crescimento, exigir mais eficiência do Estado ou defender outros caminhos para o desenvolvimento nacional. Esse é um debate legítimo e necessário em qualquer democracia. O que não pode ser relativizado é o fato de que um governo deve ser julgado, antes de tudo, por sua capacidade de garantir que homens, mulheres e crianças não sejam condenados à insegurança alimentar. A fome não é apenas um indicador social. É a mais cruel das violações da dignidade humana.

Quando um país retira milhões de pessoas da fome, ele não apenas melhora sua posição em um relatório internacional. Reafirma o valor da solidariedade, da responsabilidade pública e da dignidade humana. Governos passam, ideologias se enfrentam e eleições são vencidas ou perdidas. Mas assegurar que uma criança durma alimentada, que uma mãe tenha comida para colocar na mesa e que um trabalhador não precise escolher entre pagar uma conta ou comprar alimento é uma conquista que pertence à sociedade inteira.
É por isso que, mesmo que todos os demais indicadores fossem apenas medianos — e não são —, esse resultado, por si só, já bastaria para justificar meu apoio a um projeto político que fez do combate à fome uma de suas prioridades. Porque não existe liberdade para quem tem fome, não existe cidadania para quem vive na privação e não existe desenvolvimento verdadeiro quando parte da população sequer tem garantido o direito mais básico de todos: o direito à alimentação.




