A entrada de até 60 mil migrantes em apenas dois dias transformou Ceuta, enclave espanhol no norte da África, no centro de uma grave crise humanitária e diplomática. O episódio, considerado a maior onda migratória registrada na região nos últimos anos, deixou ao menos 57 mortos, mobilizou tropas espanholas e reacendeu as tensões entre Espanha e Marrocos.
Segundo o governo espanhol, cerca de 50 mil pessoas cruzaram a fronteira, a maioria pela costa, em busca de acesso ao território europeu. Até o fim da tarde desta sexta-feira (31), o Ministério do Interior informou que aproximadamente 48,3 mil migrantes já haviam retornado voluntariamente ao Marrocos. No entanto, o presidente do governo de Ceuta, Juan Jesús Vivas, estima que o número de entradas possa ter chegado a 60 mil pessoas. O enclave abriga cerca de 80 mil habitantes.
As autoridades espanholas confirmaram a recuperação de pelo menos 57 corpos no lado espanhol da fronteira e alertaram para a possibilidade de haver mais vítimas em território marroquino. Parte dos migrantes morreu afogada durante a travessia marítima, enquanto outros foram esmagados ao tentar escalar o quebra-mar que protege a cerca fronteiriça.
Diante da dimensão da crise, o governo da Espanha reforçou o controle da fronteira com tropas, policiais, mergulhadores, drones e embarcações. O primeiro-ministro Pedro Sánchez e o ministro do Interior estiveram em Ceuta para acompanhar as operações na passagem de Tarajal.
Embora Ceuta enfrente historicamente forte pressão migratória por ser uma das únicas fronteiras terrestres entre a União Europeia e a África, especialistas consideram o atual episódio sem precedentes. O caso mais semelhante ocorreu em maio de 2021, quando cerca de 10 mil pessoas entraram no território em apenas dois dias.
Na ocasião, a crise teve origem na decisão da Espanha de receber para tratamento médico Brahim Ghali, líder da Frente Polisário, movimento que defende a independência do Saara Ocidental. Como resposta, Marrocos relaxou o controle da fronteira, em uma medida interpretada como retaliação diplomática. A tensão culminou na saída da então ministra das Relações Exteriores, Arancha González Laya, e, posteriormente, levou Madri a apoiar o plano marroquino para o Saara Ocidental.
Agora, analistas voltam a relacionar a nova onda migratória ao impasse sobre o território. O Parlamento espanhol deverá analisar em setembro um projeto que concede nacionalidade espanhola aos saarauís nascidos antes de 1977, quando o Saara Ocidental ainda era administrado pela Espanha. A proposta é considerada sensível por Marrocos, que reivindica soberania sobre a região.
Também pesa na análise a recente aproximação diplomática entre Espanha e Argélia, principal apoiadora da Frente Polisário. A visita de Pedro Sánchez a Argel, realizada em 20 de julho, marcou a retomada das relações bilaterais após anos de distanciamento.
Outra hipótese para explicar o aumento das travessias envolve uma decisão do Tribunal Supremo da Espanha, que no início de julho proibiu a expulsão imediata de migrantes interceptados no mar. Embora a medida não altere as regras para quem entra pelas barreiras terrestres, especialistas avaliam que ela criou a percepção de que seria mais difícil deportar quem chegasse por via marítima.
Pedro Sánchez afirmou que organizações criminosas exploraram essa interpretação para incentivar milhares de pessoas a tentar alcançar Ceuta. Segundo ele, informações distorcidas sobre a decisão judicial se espalharam rapidamente entre os migrantes e impulsionaram a corrida rumo ao território espanhol.
O presidente do Observatório do Norte de Direitos Humanos, Mohamed Benaissa, também atribuiu o aumento das travessias ao chamado “efeito chamada”, reforçado pela circulação de mensagens nas redes sociais entre candidatos à migração.
O governo marroquino evitou comentar oficialmente a crise. De acordo com a agência Europa Press, autoridades em Rabat responsabilizaram redes criminosas pela mobilização dos migrantes e afirmaram que a cooperação com a Espanha no controle das fronteiras permanece “exemplar”.
A crise também ampliou a pressão política sobre o governo espanhol dentro da União Europeia. Sánchez afirmou que pretende estudar mudanças na Lei de Estrangeiros para tornar os processos de repatriação mais rápidos.
Na Itália, integrantes da coalizão da primeira-ministra Giorgia Meloni defenderam medidas contra a Espanha e classificaram a imigração irregular como uma ameaça à segurança das fronteiras europeias. Em seguida, o governo italiano anunciou a suspensão do acordo de Schengen com a Espanha, medida considerada por analistas mais simbólica do que prática, já que Ceuta não integra o espaço Schengen.
O chanceler alemão Friedrich Merz também cobrou uma resposta rápida das autoridades espanholas e defendeu que Marrocos aceite imediatamente o retorno dos migrantes em situação irregular.
Localizada na costa norte da África, Ceuta, ao lado de Melilla, representa as únicas fronteiras terrestres entre a União Europeia e o continente africano. Marrocos não reconhece oficialmente a soberania espanhola sobre esses territórios e continua reivindicando ambas as cidades. Por sua posição estratégica, Ceuta permanece como uma das principais portas de entrada para migrantes que tentam alcançar a Europa, embora a maior parte da imigração irregular para a Espanha continue ocorrendo pelas rotas marítimas rumo às Ilhas Canárias e, em menor escala, às Ilhas Baleares.




