O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que o Brasil possui mecanismos para reagir às novas tarifas impostas pelos Estados Unidos com base no princípio da reciprocidade. A declaração foi feita em artigo publicado neste domingo (26) no jornal norte-americano The Washington Post, no qual o presidente também classificou as medidas adotadas por Washington como um erro estratégico que tende a causar prejuízos às duas economias.
Na publicação, Lula argumenta que a sobretaxa aplicada aos produtos brasileiros encarecerá mercadorias para os consumidores americanos e poderá comprometer cadeias produtivas integradas entre os dois países. Segundo ele, diversos setores da indústria dos Estados Unidos dependem de insumos produzidos no Brasil, como alimentos, calçados, têxteis, móveis e autopeças.
As novas restrições comerciais foram anunciadas na última quinta-feira (23). O governo dos Estados Unidos decidiu impor uma tarifa adicional de 12,5% ao Brasil com base na Seção 301 da Lei de Comércio, após uma investigação sobre supostas falhas no combate à importação de produtos fabricados com o uso de trabalho forçado. O percentual se soma aos 25% já aplicados anteriormente, elevando a carga tarifária para 37,5% sobre diversos setores.
Lula também destacou que as exportações brasileiras para os Estados Unidos atingiram o menor patamar desde 1997. De acordo com os dados apresentados no artigo, o comércio bilateral caiu 12,8% na comparação entre os primeiros seis meses de 2025 e de 2026. No mesmo período, as trocas comerciais do Brasil com a União Europeia cresceram 6,1%, enquanto o comércio com a China avançou 15,9%.
O presidente citou ainda um levantamento da organização suíça Global Trade Alert, segundo o qual Brasil e Turquia aparecem como os segundos países mais afetados pelas tarifas americanas, atrás apenas da China. Ele também lembrou que, apesar das novas barreiras, os Estados Unidos acumulam superávit de US$ 428 bilhões no comércio de bens e serviços com o Brasil ao longo dos últimos 15 anos.
No texto, Lula afirma que a decisão da Casa Branca desconsiderou meses de negociações entre representantes dos dois países, incluindo reuniões técnicas e documentos entregues pessoalmente ao presidente Donald Trump. Para o presidente brasileiro, a medida é incompatível com o discurso americano de fortalecimento das relações no hemisfério ocidental.
O chefe do Executivo também rejeitou as justificativas apresentadas pelo governo Trump para impor as novas tarifas e defendeu a regulamentação das plataformas digitais, afirmando que o combate a atividades criminosas nas redes sociais não pode ser confundido com restrição à liberdade de expressão.Outro ponto abordado foi o Pix. Lula destacou que o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos não discrimina empresas americanas e se tornou uma referência internacional em infraestrutura pública digital.
Ao encerrar o artigo, o presidente reafirmou que o Brasil continuará aberto ao diálogo com os Estados Unidos em temas como investimentos, comércio e combate ao crime organizado, mas ressaltou que a relação entre os dois países deve ser baseada no respeito à soberania e na reciprocidade. Segundo ele, o Brasil dispõe dos instrumentos necessários para responder às medidas adotadas pelos Estados Unidos e não aceitará interferências externas na definição de seus rumos.




