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Jornalista da Piauí atribui a Campos Neto falhas de fiscalização nos casos Master e Digimais

A jornalista Consuelo Dieguez, da revista piauí, afirmou que a responsabilidade pelas falhas de fiscalização que permitiram o crescimento dos bancos Master e Digimais recai sobre a gestão de Roberto Campos Neto no Banco Central. A avaliação foi feita em entrevista concedida ao Matinal, publicada nesta quarta-feira (24), no portal Amado Mundo.

A declaração foi dada um dia após a Polícia Federal deflagrar uma operação contra o Banco Digimais, instituição ligada ao bispo Edir Macedo. A investigação apura suspeitas de manipulação de balanços, superavaliação de ativos e outras irregularidades apontadas em relatórios do Banco Central. A Justiça determinou o bloqueio de até R$ 670 milhões em bens dos investigados.

Responsável por uma série de reportagens que revelaram problemas na instituição meses antes da operação policial, Dieguez afirmou que as investigações da PF corroboram informações já divulgadas pela revista.

Segundo a jornalista, tanto o Digimais quanto o Banco Master teriam adotado mecanismos semelhantes para ampliar artificialmente sua capacidade de captação de recursos. O modelo consistiria na valorização de ativos considerados sem lastro econômico consistente — desde títulos antigos até imóveis superavaliados — para elevar o patrimônio das instituições e, assim, permitir a emissão de grandes volumes de Certificados de Depósito Bancário (CDBs).

Esses títulos, afirmou, eram ofertados com rentabilidades muito acima das praticadas pelos grandes bancos, utilizando a proteção do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) como principal atrativo para investidores.

Responsabilidade de Campos Neto

Ao comparar as gestões de Roberto Campos Neto e Gabriel Galípolo no Banco Central, Dieguez foi categórica ao atribuir à administração anterior a responsabilidade pela falta de fiscalização.

“Sem dúvida, Roberto Campos Neto, porque foi quem deixou esses bancos operarem”, afirmou.

Na avaliação da jornalista, a política de incentivo à concorrência bancária acabou permitindo que instituições com problemas estruturais crescessem sem o devido acompanhamento dos órgãos reguladores.

Ela citou o caso do Banco Master, que teria ampliado rapidamente sua emissão de CDBs nos últimos anos, passando de cerca de R$ 2 bilhões para aproximadamente R$ 40 bilhões em títulos ofertados ao mercado.

Para Dieguez, esse crescimento deveria ter acendido um alerta no Banco Central muito antes da atual crise.

Influência política e demora na fiscalização

Durante a entrevista, a jornalista também levantou questionamentos sobre o peso das relações políticas nos dois casos.

No caso do Master, ela mencionou a influência do banqueiro Daniel Vorcaro em Brasília e afirmou que havia uma rede de apoio político em torno da instituição. Embora tenha ressaltado não possuir provas de interferência direta sobre os órgãos de controle, avaliou que os vínculos políticos ajudam a explicar a demora na adoção de medidas mais rigorosas.

Já em relação ao Digimais, destacou que o banco pertence ao grupo liderado por Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, proprietário de um dos maiores grupos de comunicação do país e figura de grande influência no meio político.

Assédio judicial após reportagens

Consuelo Dieguez também relatou ter enfrentado forte pressão jurídica após a publicação das reportagens da piauí sobre o Digimais.

Segundo ela, a revista foi alvo de uma série de questionamentos e demandas judiciais que consumiram semanas de trabalho da equipe de reportagem.

A jornalista defendeu que entidades representativas da imprensa construam uma resposta coletiva para enfrentar o chamado assédio judicial contra profissionais e veículos de comunicação que publicam reportagens investigativas.

“Fica praticamente impossível trabalhar quando você faz esse tipo de denúncia e tem uma equipe de advogados permanentemente em cima da redação”, afirmou.

Alerta para riscos no sistema financeiro

Ao longo da entrevista, Dieguez também chamou atenção para possíveis fragilidades do sistema financeiro brasileiro, especialmente no uso da cobertura do Fundo Garantidor de Crédito por instituições menores para atrair investidores com promessas de retornos elevados.

Na avaliação da jornalista, os episódios envolvendo Master e Digimais demonstram a necessidade de ampliar a supervisão sobre bancos que oferecem rentabilidades muito acima da média do mercado.

Ela observou ainda que órgãos como o Banco Central e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) dispõem de instrumentos e acesso a informações que permitem identificar irregularidades com antecedência.

Por isso, considera preocupante que os problemas tenham se tornado públicos inicialmente por meio de reportagens jornalísticas.

“O mais trágico dessa história é que tenha sido necessário o trabalho de uma revista para que tudo isso viesse à tona”, concluiu.

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