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Ideias antes consideradas impensáveis ganham espaço nos EUA e alimentam debate sobre restrição ao voto feminino

Pastor Doug Wilson diz que revogação do voto feminino seria “uma boa ideia” e defende voto por unidade familiar

Propostas que até poucos anos atrás pareciam incompatíveis com a democracia americana voltaram a circular em setores da direita religiosa e do movimento conservador dos Estados Unidos. Entre elas está a defesa da revogação da 19ª Emenda da Constituição, que garantiu o direito de voto às mulheres em 1920, substituindo o sufrágio individual por um modelo baseado na família, no qual apenas o chefe do núcleo familiar exerceria o voto.

A ideia é defendida pelo teólogo e pastor Doug Wilson, fundador da Comunhão das Igrejas Evangélicas Reformadas e líder de uma estrutura que reúne cerca de 170 congregações, além de universidade, escolas, editora e uma plataforma de streaming. A partir da cidade de Moscow, no Estado de Idaho, Wilson tornou-se uma das principais vozes do nacionalismo cristão branco e ganhou projeção nacional por sua proximidade com integrantes do governo de Donald Trump.

Entre seus admiradores está o secretário de Defesa, Pete Hegseth, que chegou a convidar o pastor para ministrar um sermão no Pentágono. A relação reforçou o interesse da imprensa americana pelas posições de Wilson, que defende abertamente uma teocracia inspirada em princípios religiosos e considera que o sufrágio feminino teria estimulado o que chama de “câncer do individualismo”

Na comunidade liderada pelo pastor, decisões são tomadas segundo o princípio da “unidade familiar”, em que a família, e não cada indivíduo, representa a unidade política. Para Wilson, esse modelo deveria substituir o sistema atual de votação.

Embora a revogação da 19ª Emenda seja considerada extremamente improvável — por exigir aprovação de dois terços do Congresso e a ratificação de três quartos dos Estados americanos — o debate ganhou atenção diante de precedentes recentes. A revogação das proteções federais ao direito ao aborto pela Suprema Corte, em 2022, demonstrou que mudanças antes vistas como improváveis podem ocorrer no cenário político dos Estados Unidos.

Para a filósofa Wendy Brown, uma das principais estudiosas da política americana contemporânea, a relevância dessas ideias está justamente na capacidade de deixarem de ser marginais e conquistarem espaço no debate público. Em sua avaliação, elas encontram apoio tanto entre homens quanto entre mulheres, embora considere mais preocupantes as estratégias voltadas para restringir a participação eleitoral por meio da manipulação de distritos, exigências rigorosas de identificação de eleitores e ações que reduzem a participação da população negra nas eleições.

O historiador Matthew Avery Sutton, autor de Chosen Land, afirma que Wilson construiu sua notoriedade com declarações provocativas e discursos deliberadamente polêmicos. Segundo ele, apesar de não representar a maioria dos moradores de Moscow, o pastor tornou-se uma referência para grupos nacionalistas brancos presentes no norte de Idaho.

Masculinismo amplia alcance nas redes sociais

A defesa do chamado princípio “uma família, um voto” integra um movimento mais amplo conhecido como masculinismo, definido pela jornalista Helen Lewis, da revista The Atlantic, como uma reação organizada aos avanços do feminismo e uma tentativa de reafirmar a supremacia masculina.

Segundo Lewis, o movimento reúne tanto grupos religiosos quanto influenciadores seculares e figuras da extrema direita, incluindo o streamer Sneako, o influenciador Andrew Tate e o ativista Nick Fuentes. Em comum, todos explorariam narrativas que apresentam os homens como vítimas das transformações sociais promovidas pelo feminismo.

A jornalista também observa que esse tipo de conteúdo encontra amplo espaço nas redes sociais, onde gera audiência e receita publicitária para setores ligados a criptomoedas, apostas esportivas e suplementos alimentares.

Traços desse discurso também aparecem dentro do governo americano. O secretário de Defesa Pete Hegseth tem sido alvo de críticas por bloquear promoções de mulheres e integrantes de minorias nas Forças Armadas e por anunciar testes obrigatórios de testosterona para militares com mais de 30 anos, medida que provocou forte repercussão política.

“Tradwives” e influência política

O modelo defendido por Wilson também encontra apoio em parte do movimento das chamadas tradwives — mulheres que promovem um estilo de vida centrado nos papéis tradicionais de esposa e dona de casa.

Uma das vozes mais conhecidas é a influenciadora Savanna Stone, participante da Cúpula de Liderança Feminina promovida pela organização conservadora Turning Point, no Texas. Durante o evento, Stone classificou o feminismo como “a maior mentira já contada às mulheres”, afirmando que o movimento teria como objetivo enfraquecer o casamento e a família.

Nas eleições presidenciais de 2024, versões da proposta de “uma família, um voto” também apareceram em alguns círculos republicanos, inclusive entre eleitores hispânicos, incentivando chefes de família a acompanhar o voto de esposas e filhas para evitar que apoiassem a então candidata democrata Kamala Harris. Naquele pleito, 54% das mulheres votaram em Harris, enquanto 44% escolheram Donald Trump.

A Janela de Overton

Para cientistas políticos, a circulação dessas propostas ilustra o conceito conhecido como “Janela de Overton”, teoria que descreve como ideias inicialmente consideradas radicais podem se tornar gradualmente aceitáveis quando passam a ser repetidas com frequência no debate público.

Segundo essa interpretação, a estratégia consiste em deslocar os limites do que é socialmente aceitável, fazendo com que propostas antes impensáveis passem a parecer apenas mais uma possibilidade de discussão. O fenômeno, afirmam analistas, ajuda a explicar por que temas como a restrição do voto feminino, embora ainda sem viabilidade política concreta, passaram a ocupar espaço no debate público americano.

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