TAG firmado três dias antes da saída de JHC da Prefeitura de Maceió reconheceu passivo de R$ 212,2 milhões relacionado a contrato de iluminação pública; meses depois, empresa entrou no centro de investigação após sequência de saques em espécie
A empresa de iluminação pública que entrou no centro de uma investigação após a apreensão de R$ 2 milhões em espécie teve um passivo de R$ 212,2 milhões reconhecido pela Prefeitura de Maceió no fim da gestão de JHC. O valor foi registrado em um Termo de Ajustamento de Gestão (TAG) assinado em 1º de abril de 2026, apenas três dias antes de João Henrique Caldas, JHC (PSDB), deixar o cargo para disputar as eleições deste ano.
O acordo envolveu o município, a autarquia Ilumina e a Ceilurb e foi firmado em relação ao Contrato nº 187/2022. Segundo o documento, o passivo financeiro relacionado ao contrato chegava a R$ 212.244.144,94.
O levantamento foi publicado pelo Metrópoles e ganha relevância no contexto da investigação sobre a movimentação financeira da empresa. Entre 4 e 18 de setembro, contas relacionadas à Ceilurb registraram saques e solicitações de retirada em espécie que somaram R$ 5,084 milhões. Desse total, R$ 3,084 milhões foram efetivamente sacados e outros R$ 2 milhões estavam programados para retirada no dia em que ocorreu a operação policial.
A origem e a destinação dos recursos estão sendo investigadas. Até o momento, não há informação oficial de que o dinheiro tenha origem nos pagamentos feitos pela Prefeitura de Maceió à empresa.
TAG reconheceu passivo de R$ 212 milhões
O documento assinado em 1º de abril detalhou a composição do passivo. Do total reconhecido, R$ 60,77 milhões correspondiam a diferenças de reajustes sobre processos que já haviam sido pagos.
Outros R$ 151,46 milhões estavam relacionados a processos ainda pendentes de pagamento, já acrescidos dos respectivos reajustes previstos no contrato.
O acordo foi celebrado três dias antes da saída de JHC da Prefeitura de Maceió. O então prefeito deixou o cargo para disputar as eleições deste ano.
O Contrato nº 187/2022 também é objeto do Inquérito Civil nº 06.2026.00000296-3, instaurado pela 14ª Promotoria de Justiça da Capital, Fazenda Pública Municipal, do Ministério Público de Alagoas.
A apuração envolve suspeitas de possíveis irregularidades relacionadas à aplicação de recursos públicos pela Ilumina. Entre os pontos analisados estão pagamentos por serviços prestados durante período de suspensão judicial do contrato, utilização de recursos da Contribuição para Custeio do Serviço de Iluminação Pública (Cosip) e questões relacionadas à execução, medição e pagamento de serviços de ampliação, modernização e telegestão do parque de iluminação.
As situações são objeto de investigação e não representam conclusão do Ministério Público sobre a existência de irregularidades.
Saques somaram R$ 5 milhões
Enquanto o contrato era executado, contas relacionadas à Ceilurb passaram a apresentar uma sequência de operações em espécie.
Em 4 de setembro, houve um saque de R$ 84 mil em uma conta de pessoa física. No dia 8, foram retirados R$ 1 milhão de uma conta da Ceilurb Ltda. Em 11 de setembro, outros R$ 2 milhões foram sacados da mesma conta.
Para 18 de setembro, havia uma solicitação para retirada de mais R$ 2 milhões. Foi nessa data que dois homens ligados à empresa foram conduzidos pela polícia.
Eles foram identificados como Maurício Leite Tenório Costa e Leopoldo Del Rosário Toro Ramires Júnior, apontados como gerente e assistente da Ceilurb, respectivamente.
A investigação busca esclarecer a origem e o destino dos valores. Não há, até agora, informação oficial que estabeleça que os recursos sacados tenham sido provenientes dos pagamentos feitos pelo município.
Empresa recebeu R$ 8,5 milhões antes da operação
A movimentação em dinheiro ocorreu no mesmo período em que a Ceilurb recebeu novos pagamentos da Prefeitura de Maceió.
Segundo o levantamento do Metrópoles, nos nove dias anteriores à operação policial, o município repassou R$ 8,5 milhões à empresa.
Desse montante, R$ 5 milhões foram classificados como pagamentos referentes a “obras realizadas” e financiados por contrato de crédito com a Caixa Econômica Federal. O restante correspondeu a parcelas relacionadas ao contrato regular e ao TAG.
A proximidade entre os pagamentos públicos e os saques não comprova, por si só, qualquer relação entre os recursos. A origem do dinheiro apreendido permanece sob investigação.
Em 2026, a Ceilurb recebeu R$ 52 milhões do município. Nos últimos cinco anos e meio, os pagamentos realizados por meio da autarquia Ilumina somam R$ 320,5 milhões.
Investigação continua
A apreensão dos R$ 2 milhões ocorreu depois que informações foram repassadas pela Segurança Pública de Sergipe às autoridades alagoanas. A Polícia Militar acompanhou a movimentação e abordou os dois funcionários após eles deixarem uma agência do Banco do Brasil, no bairro do Farol.
Além do dinheiro, foram apreendidos celulares, documentos, talões de cheque e o veículo utilizado pelos homens.
A Polícia Civil investiga a origem dos recursos e também a existência de outros saques de grandes valores. Os funcionários teriam informado que o dinheiro foi retirado por determinação da proprietária da empresa.
Os dois foram ouvidos e liberados, mas continuam sendo investigados.
A apuração agora deverá cruzar informações bancárias, fiscais e contratuais para esclarecer a origem dos valores, a finalidade dos saques e eventual relação com contratos e pagamentos públicos.
Fonte: Metrópoles




