Monica de BollePesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics e professora da Universidade de Georgetown, nos EUA
A economista Monica de Bolle, pesquisadora sênior do Peterson Institute for International Economics e professora da Universidade de Georgetown, e Philip Yang, fundador do Urbem (Instituto de Urbanismo e Estudos para a Metrópole) e conselheiro do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), defendem que o Brasil adote uma resposta rápida e direta às tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros.
Em artigo publicado na Folha de S.Paulo e também durante uma transmissão ao vivo, os dois sustentam que a estratégia anunciada pelo governo norte-americano revela, na prática, os setores em que Washington é mais dependente das exportações brasileiras e, por isso, mais suscetível a sofrer pressão econômica.
Segundo os autores, a decisão do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) de preservar uma extensa lista de produtos da nova tarifa de 25% demonstra que o governo americano evitou atingir itens considerados estratégicos para sua própria economia. Entre eles estão café, suco de laranja, carne bovina, ferro-gusa, aeronaves e componentes aeronáuticos.
Na avaliação de Monica de Bolle e Philip Yang, a lista de exceções representa um verdadeiro “mapa de vulnerabilidades” dos Estados Unidos. Eles argumentam que os produtos poupados são justamente aqueles cuja interrupção de fornecimento teria impacto imediato sobre consumidores, indústrias e cadeias produtivas americanas.
Os economistas também afirmam que o tarifaço não encontra justificativa econômica. Eles lembram que os Estados Unidos registram superávit comercial de cerca de US$ 14 bilhões na relação com o Brasil, o que, segundo eles, desmonta a narrativa de que a medida seria uma resposta a desequilíbrios comerciais. Para os autores, trata-se de uma decisão de natureza política e que transforma o Brasil em um teste para futuras ações comerciais contra outros países.
No texto, os especialistas avaliam que a estratégia atualmente adotada pelo governo brasileiro — baseada na Organização Mundial do Comércio (OMC) e na Lei da Reciprocidade Econômica — é insuficiente diante da forma como o governo de Donald Trump conduz disputas comerciais.
Eles argumentam que recorrer à OMC possui eficácia limitada porque o órgão de apelação da entidade permanece praticamente paralisado devido ao bloqueio promovido pelos próprios Estados Unidos. Além disso, observam que os mecanismos previstos na legislação brasileira envolvem consultas e procedimentos que exigem tempo, enquanto as medidas americanas produzem efeitos imediatos.
Como alternativa, Monica de Bolle e Philip Yang defendem uma retaliação direta e sem demora. A proposta consiste em suspender temporariamente as exportações brasileiras justamente dos produtos que ficaram de fora das tarifas americanas, como café, suco de laranja, carne bovina, ferro-gusa e peças destinadas à indústria aeronáutica.
Segundo os autores, a medida não teria caráter permanente nem seria motivada por revanchismo, mas serviria para demonstrar que ações unilaterais também geram custos para quem as adota.
Eles destacam que aproximadamente 30% do café consumido nos Estados Unidos é produzido no Brasil, enquanto o país também ocupa posição dominante no fornecimento de suco de laranja. Além disso, ressaltam que a carne brasileira ajuda a conter preços no mercado americano, que o ferro-gusa brasileiro é essencial para parte da indústria siderúrgica e que componentes fabricados no Brasil sustentam operações da cadeia aeronáutica ligada à Embraer.
Na avaliação dos economistas, a interrupção temporária dessas exportações provocaria aumento de preços para consumidores americanos e pressionaria setores industriais estratégicos, justamente em um momento politicamente sensível.

O artigo também sugere que minerais estratégicos, como nióbio e terras raras, poderiam integrar uma segunda etapa de eventuais medidas de retaliação, especialmente por sua importância para os setores de defesa e tecnologia. Ainda assim, os autores consideram que a prioridade deve ser concentrar esforços em produtos capazes de produzir efeitos econômicos imediatos.
Eles lembram que os Estados Unidos realizarão eleições legislativas de meio de mandato em novembro e argumentam que um aumento da inflação sobre alimentos e produtos de consumo poderia gerar desgaste político para o governo americano durante o período eleitoral.
Ao responder às críticas de que uma reação mais dura poderia provocar nova escalada comercial, Monica de Bolle e Philip Yang afirmam que o próprio governo americano reconheceu seus limites ao preservar cerca de dois terços das exportações brasileiras da incidência das tarifas.
Para eles, deixar de reagir cria um precedente perigoso, estimulando novas medidas semelhantes no futuro. Os autores citam ainda o caso da China, que, segundo o artigo, respondeu em 2025 às pressões comerciais dos Estados Unidos com restrições envolvendo terras raras, levando Washington a rever sua posição poucas semanas depois.
O texto também rebate o argumento de que uma retaliação imediata seria inviável do ponto de vista jurídico. Segundo os economistas, o Brasil poderia instituir um imposto de exportação por meio de decreto da Câmara de Comércio Exterior (Camex), com respaldo na legislação de 1977, sem necessidade de aprovação do Congresso Nacional. Eles sustentam ainda que esse instrumento possui maior respaldo nas regras da OMC do que embargos ou sistemas de cotas.
Os autores reconhecem que uma eventual suspensão das exportações ou tributação adicional geraria perdas temporárias para cafeicultores, frigoríficos, siderúrgicas e empresas ligadas ao setor aeronáutico. Ainda assim, defendem que caberia ao governo adotar medidas de compensação para esses segmentos, argumentando que um sacrifício de curto prazo fortaleceria a posição brasileira em futuras negociações.
Na conclusão do artigo, Monica de Bolle e Philip Yang afirmam que o Brasil precisa abandonar uma postura exclusivamente reativa e responder de forma imediata ao tarifaço americano. Para eles, a reciprocidade demonstra a intenção de ser tratado em igualdade de condições, enquanto uma retaliação rápida representa, na prática, uma atuação compatível com esse princípio.




