O Departamento de Estado dos Estados Unidos atravessa uma das maiores turbulências de sua história recente, segundo análise publicada pelo Financial Times. A avaliação do jornal britânico é de que a tradicional estrutura diplomática americana perdeu espaço no segundo mandato de Donald Trump, marcado por cortes, redução da influência de diplomatas de carreira e uma mudança profunda na forma como Washington conduz sua política externa.
Para diplomatas em ascensão, o atual cenário apresenta uma situação paradoxal: há uma grande quantidade de postos vagos em representações americanas pelo mundo, incluindo embaixadas consideradas estratégicas. No fim de junho, mais da metade das embaixadas dos Estados Unidos ainda não tinha um titular confirmado, com vagas em países de grande relevância, como Alemanha e Arábia Saudita. Na África, a situação é ainda mais ampla, com quase 80% das embaixadas americanas no continente sem embaixadores nomeados.
Apesar da abertura de oportunidades no exterior, o ambiente interno do Departamento de Estado é descrito como de forte insegurança. Desde o retorno de Trump à Casa Branca, em janeiro de 2025, o governo passou a promover uma ampla reformulação do órgão, acompanhado de críticas ao que chama de antigo sistema de política externa americano.
Historicamente, o Departamento de Estado ocupou uma posição central na projeção internacional dos Estados Unidos. Desde o fim da Guerra Fria, diplomatas e embaixadores americanos exerceram grande influência nas relações bilaterais, muitas vezes funcionando como principais representantes da estratégia de Washington em diferentes regiões do mundo.
O cenário atual, porém, é apontado pelo Financial Times como uma ruptura com esse modelo. Segundo o jornal, Trump abandonou uma tradição de décadas ao reduzir a participação de diplomatas de carreira na liderança das embaixadas. Das 101 indicações feitas pelo presidente para postos diplomáticos durante seu segundo mandato, apenas nove seriam de integrantes do serviço diplomático profissional.
A mudança ocorre paralelamente a uma redução significativa da estrutura do Departamento de Estado. Desde o início do novo governo Trump, a força de trabalho do órgão teria diminuído em mais de 3 mil funcionários, uma queda superior a 20%.
Integrantes da administração Trump defendem que a reestruturação é necessária para modernizar uma instituição considerada burocrática e distante das prioridades do governo. A visão oficial é de que o Departamento de Estado deve atuar como instrumento de execução da política externa definida pelo presidente, e não como formulador independente de estratégias internacionais.
Diplomatas de carreira, por outro lado, avaliam que as mudanças representam uma politização sem precedentes do serviço diplomático e uma perda de especialistas com conhecimento aprofundado sobre regiões, culturas e conflitos internacionais. Para eles, a agenda de “América Primeiro” estaria reduzindo o valor da experiência técnica acumulada ao longo de décadas.
Ex-integrantes de alto escalão da diplomacia americana alertam que o enfraquecimento institucional pode comprometer a capacidade dos Estados Unidos de negociar em cenários complexos. A comparação feita por alguns veteranos é de que a atual crise supera episódios históricos de pressão política sobre o Departamento de Estado, como o período do macarthismo nos anos 1950, quando especialistas em China foram afastados durante a campanha contra supostas influências comunistas.
A crítica central é que o problema não estaria apenas na redução de cargos, mas na perda de conhecimento estratégico e na substituição de equipes experientes por representantes mais alinhados politicamente ao presidente.
Um dos exemplos citados pelo jornal envolve negociações internacionais conduzidas por assessores próximos a Trump, como tratativas relacionadas ao Irã. Críticos afirmam que a ausência de especialistas de carreira teria deixado os Estados Unidos em desvantagem diante de negociadores estrangeiros com equipes técnicas altamente preparadas.
Diplomatas que deixaram seus cargos durante o atual governo afirmam que a falta de experiência institucional prejudica a capacidade americana de competir em negociações que exigem conhecimento detalhado sobre temas históricos, militares e econômicos.
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