Itamaraty deixa de tratar diretamente com o embaixador argentino e mantém representante brasileiro fora de Buenos Aires enquanto persistirem as ofensas do presidente argentino.
O governo brasileiro decidiu elevar o tom na crise diplomática com a Argentina e adotou uma medida inédita nas relações entre os dois países. Nesta terça-feira (4), o Ministério das Relações Exteriores informou ao embaixador argentino no Brasil, Guillermo Daniel Raimondi, que as tratativas diplomáticas passarão a ser conduzidas apenas pelo encarregado de negócios da embaixada argentina em Brasília.
A decisão também atinge a representação brasileira em Buenos Aires. O embaixador do Brasil na Argentina, Julio Bitelli, permanecerá em Brasília e não retornará ao posto argentino enquanto durar o atual impasse diplomático.
Segundo integrantes do governo, a medida é uma resposta direta às sucessivas declarações ofensivas do presidente argentino, Javier Milei, contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e outras autoridades brasileiras.
Apesar do endurecimento da posição brasileira, o governo esclareceu que Raimondi não foi expulso do país nem declarado persona non grata. Na prática, ele deixa de ser o principal interlocutor diplomático entre os dois governos, embora possa permanecer em território brasileiro e não tenha prazo para deixar o cargo.
A estratégia representa um rebaixamento das relações diplomáticas sem o rompimento formal entre Brasil e Argentina. Enquanto o cenário permanecer inalterado, as comunicações oficiais ocorrerão apenas por meio dos encarregados de negócios, mecanismo utilizado quando os países reduzem o nível de representação diplomática.
A decisão é considerada a mais grave crise bilateral entre Brasil e Argentina nas últimas décadas. Os dois países mantêm uma histórica parceria política, econômica e comercial, sendo importantes integrantes do Mercosul.
De acordo com integrantes do governo brasileiro, a medida tem efeito semelhante ao adotado recentemente pelos Estados Unidos em relação à embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Viotti, cujo visto diplomático foi revogado. Assim como naquele caso, não há expulsão do diplomata, mas uma limitação significativa de suas funções.
Como começou a crise
O atual desgaste teve início há pouco mais de uma semana, durante um evento realizado em São Paulo para o lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL). Na ocasião, Javier Milei fez duras críticas ao governo brasileiro.
Em seu discurso, o presidente argentino chamou Lula de “ladrão” e “presidiário”. Também dirigiu ataques ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, a quem chamou de “lixo careca” após a decisão que impediu uma visita de Milei ao ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar em Brasília.
A reação do governo brasileiro foi imediata. O Itamaraty convocou o embaixador argentino para prestar esclarecimentos e determinou o retorno do embaixador brasileiro em Buenos Aires para consultas.
Nos dias seguintes, o clima se agravou com novas declarações públicas. Integrantes do governo Lula passaram a responder às críticas de Milei. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, classificou o presidente argentino como “palhaço”, enquanto o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, afirmou que Milei é uma “caricatura patética” e um “puxa-saco” do presidente norte-americano Donald Trump.
Lula também ironizou as declarações do argentino ao ser questionado por jornalistas. “Quem é esse cara?”, respondeu ao comentar os ataques.
Mesmo diante da escalada da tensão, integrantes do governo argentino chegaram a afirmar que não havia intenção de romper relações diplomáticas com o Brasil. No entanto, Milei voltou a atacar Lula no último domingo (2), durante entrevista ao canal LN+, do jornal La Nación.
Na ocasião, o presidente argentino reafirmou as acusações contra o chefe do Executivo brasileiro e voltou a criticar a influência política do Brasil na região, aprofundando o impasse diplomático que culminou na decisão anunciada pelo Itamaraty nesta terça-feira.




