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Autor de Como as Democracias Morrem avalia que reação de Lula enfraquece estratégia de Trump

O cientista político Steven Levitsky, professor da Universidade Harvard e coautor do best-seller Como as Democracias Morrem, avalia que a resposta adotada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva diante das tarifas impostas pelos Estados Unidos reduziu a capacidade de pressão do governo Donald Trump sobre o Brasil. Para o pesquisador, a decisão de não ceder às tentativas de interferência política de Washington diferencia o país do restante da América Latina e pode limitar a eficácia da estratégia adotada pela Casa Branca.

Em entrevista à revista EXAME, Levitsky afirma que o tarifaço aplicado ao Brasil tem natureza essencialmente política e não comercial. Segundo ele, a sobretaxa de 50% anunciada por Trump em 2025 foi uma reação ao avanço das investigações da Justiça brasileira contra o ex-presidente Jair Bolsonaro por suposta tentativa de golpe de Estado, e não uma medida baseada em questões econômicas.

Na avaliação do professor, a política comercial da atual administração americana é marcada pela falta de planejamento e de coerência. Ele considera que as decisões variam de acordo com os interesses e o momento político do presidente, sem seguir uma estratégia consistente para o comércio internacional.

Levitsky também aponta que o governo Trump ampliou sua atuação intervencionista em diversos países, apoiando abertamente determinados grupos políticos e buscando influenciar disputas eleitorais, inclusive em democracias consolidadas como a Alemanha. Para o cientista político, esse comportamento ignora experiências históricas que mostram que intervenções americanas frequentemente acabam fortalecendo os adversários dos interesses de Washington.

Ele lembra que esse padrão de interferência remonta à década de 1940, durante o governo de Juan Domingo Perón, na Argentina, e afirma que a atual administração dos Estados Unidos parece desconsiderar essas lições ao insistir em pressionar governos estrangeiros.

Embora reconheça que Trump tenha obtido resultados favoráveis em alguns casos, como na aproximação com o governo de Javier Milei, na Argentina, e possivelmente em Honduras, Levitsky destaca que há exemplos em que a estratégia produziu o efeito contrário. No Canadá, segundo ele, as manifestações do presidente americano acabaram fortalecendo forças políticas liberais e de centro-esquerda.

Para o pesquisador, o Brasil tornou-se o principal exemplo na América Latina de um país que impôs limites às pressões da Casa Branca. Ele afirma que o governo Lula não recuou diante das sanções e das tarifas americanas e acredita que Trump subestimou a capacidade de reação brasileira, tratando o país da mesma forma que nações mais vulneráveis da região.

Na análise de Levitsky, a postura de Trump na política externa reflete uma visão centrada exclusivamente nos interesses dos Estados Unidos e uma tentativa de retomar uma lógica em que grandes potências impõem sua vontade sobre países considerados mais fracos, enfraquecendo a ordem internacional baseada em regras.

O cientista político afirma ainda que, apesar dos danos provocados por essa estratégia, espera que o sistema internacional possa ser reconstruído após o fim do mandato de Trump.

Ao analisar a América Latina, Levitsky observa que o presidente americano conseguiu exercer forte influência sobre governos como os da Venezuela, México e Colômbia, além de encontrar cooperação em administrações como as da Argentina e do Equador.

No entanto, considera que a reação brasileira rompeu esse padrão. Em sua avaliação, governos que cedem às pressões de Trump acabam incentivando novas exigências, enquanto aqueles que resistem tendem a reduzir sua capacidade de intimidação, levando-o a direcionar seus esforços para outros países.

Levitsky também comentou a situação envolvendo o Irã. Segundo ele, o governo Trump enfrenta dificuldades para administrar a crise e gostaria de reduzir seu envolvimento no conflito. Ao mesmo tempo, avalia que Cuba poderia surgir como um alvo politicamente mais conveniente para a Casa Branca, embora ressalte que essa percepção pode ser equivocada.

Para o professor de Harvard, uma eventual retirada americana do impasse com o Irã seria vista como uma derrota política e poderia fortalecer o governo iraniano, tornando ainda mais complexa a estratégia internacional adotada pela administração Trump.

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