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Assessora de Flávio negociou R$ 199 mil em emendas com condenado no caso Marielle, diz jornal

A assessora do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) negociou com Robson Calixto, conhecido como “Peixe”, a liberação de R$ 199 mil em emendas parlamentares destinadas a um projeto de futebol no Rio de Janeiro. Calixto foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), em fevereiro deste ano, por integrar a organização criminosa envolvida no assassinato da vereadora Marielle Franco.

As tratativas aparecem em mensagens encontradas pela Polícia Federal no celular de Calixto, apreendido durante uma operação realizada em março de 2024. Segundo a investigação, Maria de Fátima Bezerra Castro era a “interlocutora direta” de Calixto dentro do gabinete de Flávio Bolsonaro.

O dinheiro foi destinado ao projeto “Jogadores do Futuro”, do Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (Ifop), localizado na Taquara, zona oeste do Rio. A Polícia Federal identificou indícios de desvios e de contratações fraudulentas envolvendo os recursos, conforme matéria publicada pelo jornal Folha de São Paulo.

“Vê com o nosso Senador”

Nas conversas, Calixto recorre à assessora para tentar viabilizar a liberação das verbas. Em uma das mensagens, ele pede:

“Amiga vê com o nosso Senador se consegue nos ajudar”.

Maria de Fátima orienta Calixto a encaminhar um e-mail ou ofício formalizando a solicitação. Em seguida, pergunta quando ele iria a Brasília.

“Vou em Novembro, será que consegue nos ajudar com alguma coisa?”, responde o interlocutor.

A cobrança continuou nos meses seguintes. Em novembro, Calixto pede que Flávio não deixe o projeto de lado:

“Vê se o senador consegue nos agraciar, para não terminar o nosso projeto”.

A resposta da assessora é curta: “Pode deixar”.

Em março de 2024, Calixto volta a cobrar informações sobre os recursos: “Consultamos as destinações parlamentares e não tinha nada do nosso Senador, porém estamos no aguardo”.

A PF afirma que as conversas revelam uma relação próxima entre Calixto e a estrutura do gabinete de Flávio. Maria de Fátima continua lotada na equipe do senador, segundo o cadastro do Senado.

R$ 600 mil em emendas

A investigação da PF não se restringe aos R$ 199 mil do projeto esportivo. Segundo os investigadores, Flávio Bolsonaro destinou aproximadamente R$ 600 mil à organização sob investigação.

Além dos R$ 199 mil destinados ao projeto “Jogadores do Futuro”, cerca de R$ 400 mil foram enviados ao município de Barra do Piraí (RJ) por meio de uma emenda Pix.

O relatório policial aponta indícios de que parte dos recursos foi utilizada em contratações fraudulentas.

Os investigadores citam ainda uma apuração do Tribunal de Contas da União segundo a qual o escritório de advocacia do presidente do Ifop foi contratado para coordenar o projeto esportivo. A PF aponta indícios de que os valores do serviço teriam sido previamente combinados.

Relação com o núcleo dos Brazão

O Ifop está localizado na Taquara, região apontada como área de influência dos irmãos Chiquinho e Domingos Brazão.

Os dois foram condenados pelo STF, em fevereiro, a 76 anos e três meses de prisão cada um, como mandantes do assassinato de Marielle Franco e por envolvimento com uma milícia na zona oeste do Rio.

Calixto recebeu pena de nove anos de prisão por integrar a organização criminosa relacionada ao crime.Embora tenha atuado em nome de Chiquinho Brazão, Calixto não aparece como funcionário do gabinete do então deputado nos registros de 2023 e 2024. Oficialmente, era assessor de Domingos Brazão no Tribunal de Contas do Estado do Rio.

Pedido de ingressos para a Sapucaí

As mensagens também registram pedidos que não estavam relacionados às emendas.

Em uma delas, Maria de Fátima pede a Calixto quatro ingressos para o desfile das campeãs no camarote Arpoador. A solicitação foi classificada pelos investigadores como possível vantagem indevida.

Calixto conseguiu quatro credenciais com outro interlocutor, mas as mensagens não esclarecem se os ingressos foram efetivamente entregues à assessora.

Em outubro de 2023, Maria de Fátima também convidou Calixto para uma cerimônia de entrega de coletes à Polícia Militar do Rio e sugeriu que ele levasse Chiquinho Brazão para cobrar pessoalmente Flávio sobre a liberação dos recursos.

Segundo a PF, poucos dias depois do evento, Flávio destinou emendas que teriam sido utilizadas nas contratações consideradas fraudulentas.

Flávio diz que repasses foram legais

A assessoria de Flávio Bolsonaro afirma que os repasses foram realizados dentro da lei e seguiram critérios técnicos do Ministério do Esporte.

Segundo a manifestação, a entidade executora apresentou notas fiscais dos materiais adquiridos e devolveu os valores que não foram utilizados. A equipe do senador também afirma que a responsabilidade pela execução dos recursos é da entidade beneficiária e que eventuais irregularidades devem ser apuradas pelos órgãos de controle.

Ocorre que a relação revelada agora pela investigação se dá em um contexto mais amplo de vínculos políticos de Flávio Bolsonaro com personagens apontados como integrantes ou ligados a milícias do Rio.

Um dos episódios mais conhecidos envolve Adriano da Nóbrega, ex-capitão do Bope apontado pelo Ministério Público como integrante da milícia de Rio das Pedras e do grupo conhecido como “Escritório do Crime”.

Em 2003, Flávio, então deputado estadual, apresentou uma moção de louvor a Adriano. Dois anos depois, quando o policial estava preso, Flávio solicitou que ele recebesse a Medalha Tiradentes, uma das principais honrarias da Assembleia Legislativa do Rio. Anos depois, passou a ser investigado por envolvimento com milícia, homicídios e exploração de jogos ilegais.

A ligação também alcançou o gabinete de Flávio na Alerj. A mãe e a então mulher de Adriano trabalharam no gabinete até 2018. A mãe, Raimunda Veras Magalhães, também apareceu em relatório do Coaf por ter realizado uma transferência de R$ 4.600 para Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio.

O histórico inclui ainda declarações públicas da família Bolsonaro minimizando ou defendendo determinados aspectos da atuação das milícias.

Quem é Robson Calixto

Calixto atuou em nome do então deputado Chiquinho Brazão, mas não aparece formalmente como funcionário do gabinete parlamentar nos registros de 2023 e 2024. Oficialmente, era assessor de Domingos Brazão no Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro.

Em fevereiro de 2026, o STF condenou os irmãos Brazão a 76 anos e três meses de prisão cada um, como mandantes do assassinato de Marielle Franco. Calixto recebeu pena de nove anos por integrar a organização criminosa relacionada ao crime.

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