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A administração da igreja de São Sebastião

Após a conclusão da igrejinha da promessa, em homenagem a São Sebastião, quem deveria administrá-la? Arapiraca ainda não era paróquia. Aliás, a diocese de Penedo ainda não existia, pois somente foi criada em 03 de abril de 1916, pela Bula “Catholicae Eclesiae Cura”, do Papa Bento XV, sendo desmembrada da então Diocese de Alagoas (atual Arquidiocese de Maceió). Integra hoje, junto com a Arquidiocese de Maceió e a Diocese de Palmeira dos Índios, a Província Eclesiástica de Maceió, pertencente ao Regional Nordeste II. Sua superfície é de 8.905 Km2. Portanto, a Igreja de São Sebastião veio antes da Diocese de Penedo, cuja Paróquia de Nossa Senhora do Bom Conselho, em Arapiraca, foi criada em 1944. O primeiro pároco, Epitácio Rodrigues, foi seu celebrante desde 1935 até 1979, quando renunciou por idade avançada. Tudo já dito acima.

Então, como administrar a igrejinha?

Com a morte de Maria Lima em 1987 (primeira administradora), aos 82 anos, a capela passou a ser administrada por sua filha, Maria de Lourdes Lima, com o mesmo carinho, devoção e trabalho. Lourdes Lima teve ajuda de muitas pessoas da comunidade, além da própria família, para continuar a administrá-la.

Durante todo esse tempo, dia e noite a vida existiu à frente da igrejinha, principalmente na Praça Gabino Besouro, hoje conhecida como Praça Marques da Silva, homenagem ao político imolado quando vinha de assistência médica a uma pretensa grávida.

Quase diariamente, nas madrugadas, João Lúcio da Silva, político e agricultor, acendia seu cigarro de corda (fumo de rolo picado e enrolado em palha ou papel de seda), na varanda de sua residência, e pitava sossegado; o cidadão Olegário, vestindo capote Serrano (espécie de capa grossa, de feltro, e cobrindo da cabeça às pernas), devido ao frio das noites arapiraquenses, andava de um lado a outro. Parecia até que o homem não dormia nunca!

Olhava sempre as pessoas que passavam na calçada da capela para viajar a Maceió nos ônibus das empresas; primeiro, Expresso Arapiraquense (de Florisvaldo Magalhães), depois a Penedense e, por fim, a Santanense. Ah, vi muita coisa desde 1904! Presenciei e assisti jovens desfilando nas noites de domingo ao redor da praça, muitos procurando paquera (uma espécie de namoro despretensioso da época). Outros, a assistir as retretas do maestro Nelson Palmeira, com a banda de música do Clube dos Fumicultores. Sobre este fato, relembro, aqui, uma crônica da neta de Maria Lima, Vera Lúcia França de Lima, escrita em 1990:

“O sinal fecha. Parada no trânsito congestionado da praça Marques, olho distraída ao redor e deparo-me com uma cena que mais parece saída de um sonho.

De repente, vejo bandeiras coloridas sendo acariciadas pelo vento, a imagem da pequena igreja iluminada e decorada com flores, a banda de pífanos tocando, o sino chamando os fiéis para a novena e o espocar de foguetes comemorando a festa do santo. No meio dessa confusão, observo a figura de Lourdes Lima arrumando a mesa para o leilão.

“A toalha forrada com carinho, as plantas graciosamente arrumadas, e as prendas que foram ofertadas dão toque final. O ritual realizado em pleno congestionamento. Eram seis horas. O tempo parou de repente e por alguns segundos me vi criança, brincando em plena praça com meu vestido novo e fita no cabelo

“Vi minha vó Maria Lima sentada na mesa do leilão, meu pai observando tudo no caixa da Sorveteria Pinguim, toda a família reunida como num passe de mágica. Quantas lembranças e quantas saudades!

Lembranças de um tempo em que as tradições eram comemoradas e respeitadas. Lembranças daquela Arapiraca onde as pessoas eram mais amigas e as conversas de comadre eram feitas nas janelas.

Breves instantes de felicidade. A realidade retorna quando o sinal abre e o louco trânsito segue o seu caminho indiferente a tudo.

Esmagada entre um carro e outro, deixo para trás aquela cena, onde os personagens tão reais na minha imaginação, somem nas brumas do tempo. Resta apenas uma realidade dura de uma cidade onde o progresso resolveu sepultar o passado. A descaracterização do centro da cidade, a destruição de seus marcos históricos, deixaram Arapiraca sem história.

A única coisa que resta das nossas tradições é a festa de São Sebastião, mantida pela incansável Lourdes Lima e um grupo de pessoas abnegadas. Tia Lourdes, como chamamos, que jamais se preocupou com a tecnologia do ano 2000, continua mantendo viva a chama da pureza resgatada por um sentimento de amor às suas raízes, que o tempo não conseguiu destruir.

Viva São Sebastião.”

Que tempos!

*Jornalista

*Este texto reflete a visão pessoal do autor.

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