spot_img

Situationship: o vínculo que ninguém tem coragem de nomear

Por Severino Angelino — Psicanalista

Tem uma palavra em inglês que virou praticamente idioma universal entre quem namora ou tenta namorar hoje em dia: situationship. Não é ficar, não é namoro, não é a amizade colorida no sentido antigo do termo. É aquele meio-termo que dura meses, às vezes anos, com toda a intimidade de um relacionamento sério e nenhum dos combinados que dariam nome a ele.

A pergunta que ninguém faz em voz alta, porque estragaria o clima, é sempre a mesma: “o que a gente é?” E o silêncio que segue essa pergunta, na maioria das vezes, já é a resposta.

A situationship não surgiu do nada. É filha direta de uma geração que cresceu sendo ensinada a evitar rótulos em quase tudo, não só em relacionamento. Rótulo virou sinônimo de prisão, de expectativa, de coisa que “prende” o outro. Só que, na prática, o que muitas vezes chamamos de liberdade é medo travestido de discurso bonito.

Definir uma relação exige duas coisas difíceis: expor o que se sente e correr o risco de ouvir que o outro sente menos. A situationship resolve isso sem resolver nada, permite viver como casal, dormir junto, trocar boa noite todo dia, sem nunca precisar confirmar que aquilo é, de fato, importante. Se der errado, ninguém “terminou” nada. Se um dos dois sofrer, o outro sempre pode dizer que nunca prometeu nada.

Isso cria um tipo de sofrimento bem particular, e talvez seja aí que mora o motivo de tanta gente se identificar com o tema. Quando uma situationship acaba, ou simplesmente esfria, porque raramente tem um fim de fato, a pessoa vive um luto que a sociedade não reconhece como legítimo. Não dá pra dizer “terminei um namoro”. Também não parece certo dizer “só estávamos ficando”, porque aquilo durou meses, teve viagem junto, teve apresentação a amigo. A dor é real, mas não encontra categoria social para ser validada, e dor sem nome costuma doer mais, não menos, porque ninguém sabe como consolar direito.

Vale lembrar: nem toda situationship nasce de covardia mútua. Às vezes um dos dois genuinamente não quer rótulo, e o outro aceita entrar mesmo sabendo que quer mais, na esperança silenciosa de que aquilo mude com o tempo. Esse desequilíbrio é onde o sofrimento costuma se concentrar com mais força, porque um dos lados está, na prática, negociando consigo mesmo, tentando convencer a própria vontade a caber num espaço menor do que ela pede.

No consultório, esse tipo de vínculo aparece quase sempre da mesma forma: alguém chega dizendo que “não é bem um relacionamento”, mas fala do outro com o peso de quem fala de alguém central na própria vida, verifica o celular esperando mensagem, organiza a agenda em função do encontro, sente ciúme, mas evita usar essa palavra porque ela pressuporia um vínculo que ainda não tem nome. É como se a linguagem precisasse ficar mais pobre do que o sentimento, justamente para que o sentimento continue tolerável.

Do ponto de vista psicanalítico, a situationship pode ser lida como uma solução de compromisso, no sentido técnico do termo, entre dois desejos que não se conciliam facilmente: o desejo de vínculo, que é estruturante e não desaparece por mais que a época pregue autossuficiência, e o desejo de proteção contra a falta que todo vínculo verdadeiro expõe.

Nomear uma relação é, no fundo, um ato de reconhecimento do outro como alguém que importa o suficiente para ocupar um lugar simbólico definido na própria vida. E é exatamente esse reconhecimento que mobiliza a angústia mais antiga que existe: a de que, ao declarar que o outro importa, eu me exponho à possibilidade de perdê-lo, e de sentir sua falta de um jeito que não sentiria se tivesse mantido tudo em suspenso. Manter a relação sem nome é, em certo sentido, uma tentativa de driblar a castração: viver o gozo do vínculo sem pagar o preço simbólico de reconhecer a dependência que ele implica.

Há também algo a dizer sobre o objeto. Quando a relação não é nomeada, o outro pode ser mantido numa posição intermediária, nem totalmente investido como objeto de amor, nem descartado como irrelevante. Essa indefinição funciona como defesa: se o outro nunca é totalmente reconhecido como objeto de desejo pleno, a perda dele também nunca precisa ser totalmente elaborada como perda. É uma tentativa, ainda que inconsciente, de amortecer de antemão o luto que toda escolha amorosa carrega em si, porque escolher alguém sempre implica, simbolicamente, desistir da fantasia de todas as outras possibilidades.

Por isso a situationship costuma durar tanto: não é a ausência de vínculo, é um vínculo mantido deliberadamente num regime de baixa exposição, onde cada um pode experimentar a satisfação da presença do outro sem assinar embaixo do compromisso que confirmaria, para si mesmo, o quanto aquele outro já se tornou necessário.

Os aplicativos de relacionamento, com sua lógica de opções infinitas, só reforçam esse cenário. Quando existe sempre um próximo perfil a um deslizar de distância, comprometer-se com uma única pessoa passa a soar como abrir mão de algo, mesmo que esse “algo” seja, na maioria das vezes, apenas a fantasia de que existe uma opção melhor esperando na tela seguinte. A abundância de possibilidades não trouxe mais liberdade de escolha; trouxe mais dificuldade de escolher, porque toda escolha, novamente, implica luto pelas alternativas descartadas.

Existe, sim, gente que vive situationship de forma leve e consciente, sem drama nenhum e tudo bem, relação não tem fórmula única que sirva para todo mundo. O problema não é a ausência de rótulo em si. É quando essa ausência vira desculpa recorrente para nunca encarar o incômodo de uma conversa difícil, para nunca arriscar magoar ou ser magoado, para nunca dizer claramente o que se quer do outro.

Nesse sentido, a situationship acaba sendo um retrato bem preciso de uma geração inteira que aprendeu a ter medo de compromisso, não porque não queira vínculo, quer, e muito, basta ver a fome de conexão que aparece em quase toda conversa sobre solidão hoje, mas porque tem pavor do risco que vínculo real sempre carrega: o risco de ser rejeitado depois de se expor de verdade.

Talvez a pergunta mais honesta não seja “isso é namoro ou não é”. Seja: por que é mais fácil viver dentro da ambiguidade, com toda a insegurança que ela carrega, do que arriscar uma frase simples “eu gosto de você e quero saber se é mútuo” e aguentar o que vier depois. A situationship, no fundo, não é sobre falta de definição do outro. É sobre o quanto ainda temos medo de definir, em voz alta, o que sentimos e, psicanaliticamente falando, sobre o quanto ainda temos medo de desejar sem garantia de retorno.

Nomear não é garantia de nada, relações nomeadas também acabam, também doem, também decepcionam. Mas nomear é, pelo menos, assumir para si mesmo o tamanho real do que se sente, em vez de terceirizar essa decisão para a ambiguidade. E é justamente aí que mora a diferença entre viver um vínculo e administrar, o tempo todo, a possibilidade de negar que ele existe.

Leia Também

- Publicidade -spot_img
- Publicidade -spot_img

Últimas dos Blogs