Há algo profundamente preocupante quando a universidade deixa de ser vista como espaço de debate e passa a ser tratada como território inimigo.
O episódio ocorrido nesta terça-feira, na Universidade Federal de Alagoas (Ufal), é um sinal que merece atenção. Um grupo de pessoas esteve nas dependências da universidade e, segundo relatos divulgados pela imprensa, procurou o bloco onde funciona o curso de Filosofia. Houve discussão com estudantes e integrantes do grupo identificaram alguns deles como “comunistas”.
Comunismo é uma ideologia político-socioeconômica e uma corrente filosófica com uma longa história, que pode e deve ser criticada, assim como o liberalismo, o conservadorismo, o socialismo ou qualquer outra corrente de pensamento. Em uma democracia, ninguém precisa concordar com uma ideia para reconhecer o direito de seu defensor de existir, falar e ser ouvido.
O problema começa quando o rótulo político deixa de servir à identificação de uma posição e passa a ser utilizado como motivo para hostilidade.
E é aí que o episódio da Ufal merece atenção.
A Direção do Instituto de Ciências Humanas, Comunicação e Artes informou ter identificado hostilidade e agressividade verbal durante o ocorrido e acionado os órgãos responsáveis pela segurança para a apuração dos fatos.
É preciso deixar que a investigação esclareça o que aconteceu, quem participou e quais foram exatamente as circunstâncias. Não é razoável transformar suspeitas em certezas.
Mas também não é possível ignorar o contexto.
Nos últimos anos, universidades públicas passaram a ocupar um lugar privilegiado na retórica de setores da extrema direita. Tornaram-se, para parte desse discurso, símbolos de uma suposta ameaça ideológica.
Professores são acusados de doutrinação.
Pesquisadores são tratados com desconfiança.
As Ciências Humanas são frequentemente apresentadas como território suspeito.
A universidade, então, deixa de ser compreendida como aquilo que essencialmente é: um lugar onde as certezas são examinadas.
Talvez seja exatamente isso que incomode.
A universidade não foi criada para nos dizer aquilo que queremos ouvir.
Ela existe para perguntar.
Perguntar é uma atividade perigosa para quem precisa de certezas absolutas.
A Filosofia pergunta o que entendemos por verdade. A História pergunta como chegamos até aqui. A Sociologia pergunta por que a sociedade funciona de determinada maneira. A Ciência Política pergunta como o poder se organiza. A ciência, em qualquer campo, pergunta se aquilo que acreditamos pode ser demonstrado.
E, quando a resposta não confirma a hipótese inicial, a ciência muda de posição.
É assim que o conhecimento avança.
Não pela certeza permanente, mas pela disposição de reconhecer o erro.
Por isso, o conflito entre o pensamento científico e o extremismo não é exatamente uma disputa entre direita e esquerda. É uma disputa entre a abertura à dúvida e a necessidade de certeza.
A extrema direita transformou o anti-intelectualismo e a desconfiança em relação às instituições produtoras de conhecimento em elementos recorrentes de sua linguagem política.
A universidade tornou-se alvo porque representa algo difícil de controlar: o pensamento que não aceita autoridade apenas porque alguém a reivindica.
Por isso, o episódio da Ufal não deveria servir apenas para mais uma guerra de narrativas nas redes sociais.
Deveria servir para uma pergunta incômoda:que tipo de sociedade estamos construindo quando o pensamento divergente passa a ser tratado como uma ameaça?
Porque o autoritarismo raramente começa proibindo livros.
Às vezes começa ridicularizando quem os lê.
Não começa necessariamente fechando universidades.
Às vezes começa convencendo a sociedade de que elas são inimigas.
Não começa necessariamente proibindo uma opinião.
Às vezes começa ensinando que determinada pessoa, por pensar diferente, não merece ser ouvida.
É assim que o espaço público vai ficando menor.
E quando o espaço para a divergência diminui, cresce o espaço para o autoritarismo.
A universidade, com todos os seus defeitos, contradições e problemas, continua sendo um dos lugares onde uma sociedade pode aprender a conviver com a dúvida.
Ela precisa ser criticada.
Mas também precisa ser defendida.
Não por ser perfeita.
Mas porque uma democracia sem lugares onde o pensamento possa ser livremente confrontado é apenas uma sociedade cheia de certezas e cada vez menos livre.
E talvez seja essa a verdadeira batalha que está diante de nós: não entre comunistas e anticomunistas, entre direita e esquerda, mas entre aqueles que ainda aceitam a possibilidade de estar errados e aqueles que já decidiram que não precisam mais ouvir ninguém.




