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Cinema, educação e autoritarismo: da tela do DEIP às políticas de memória audiovisual no Brasil

por Professor Doutor Cláudio Jorge

Instituído em 10 de novembro de 1937, o Estado Novo redefiniu a educação brasileira sob a lógica do autoritarismo. Ao reprimir a Escola Nova e sucatear instituições como a Escola de Aperfeiçoamento e o Serviço de Música e Canto Orfeônico, o regime abriu espaço para um novo modelo pedagógico baseado no controle ideológico e na propaganda.

As modificações ocorridas no Brasil e, mais especificamente, em Pernambuco já se faziam sentir desde a Revolução de 1930, com o processo de deslocamento do poder rural para o urbano. Ao mesmo tempo, esse processo lançava à margem uma grande parcela da população na conhecida “revolução pelo alto”, potencializada pelo ideário que estava se moldando por meio da Reforma Carneiro Leão e pelos grupos da União de Moços Católicos, da Consagração Mariana, da Liga Eleitoral Católica e da União Católica por Deus e pela Pátria. Praticamente as mesmas pessoas, filiadas aos diferentes grupos, dentre os quais o interventor Agamenon Magalhães havia recrutado quase todo o seu secretariado.

Na perspectiva de Agamenon Magalhães, a escola deveria formar o indivíduo com base social, humana e nas tradições nacionalistas e cristãs do Brasil. Para isso, reintroduziu o ensino religioso obrigatório nos ensinos primário e secundário disciplina banida desde a Constituição de 1891 e equiparou o ensino rural ao urbano.

A reforma revela um projeto de modernização autoritária de Pernambuco, alinhado aos interesses ideológicos da burguesia nacional. Outro aspecto da reforma desse interventor foi o ensino rural, que deveria ser ministrado tal como era oferecido nos centros urbanos, sem distinções. É, inegavelmente, uma tentativa de modernizar Pernambuco nos moldes de um processo de desenvolvimento tipicamente autoritário no tocante aos interesses ideológicos da burguesia nacional.

O projeto pedagógico imagético, sob a intervenção de Agamenon Magalhães, pode ser capturado por meio de inúmeros vestígios. Nas correspondências enviadas ao Departamento de Imprensa e Propaganda do Estado de Pernambuco foi possível ressaltar a extrema necessidade da divulgação propagandística do Estado Novo por meio do cinema pernambucano. Essa necessidade acabou despertando o interesse de alguns cinematografistas, desejosos de vir trabalhar no Estado: “Com a criação do Departamento Estadual de Imprensa e Propaganda, a Divisão de Cinema do DEIP de Pernambuco precisará, fatalmente, de um cinematografista prático, cujos conhecimentos facilitem a organização desse departamento. Assim, venho oferecer a V. S. os meus serviços”.

A correspondência acima citada evidencia a instauração de uma divisão de cinema em Pernambuco, conferindo a sua importância estratégica como o segundo meio de propaganda, sendo a imprensa o primeiro. Outro aspecto importante é o fato de que esse estado nordestino estava absorvido pelos cinemas, não só na capital como no interior, invadindo o cotidiano pernambucano, modificando hábitos, comportamentos e reinventando novos valores na sociedade.

No estado havia, em média, 37 cinemas, entre eles: Ideal e Paroquial, em Altinho; o Globo, em Belo Jardim; Bom Jardim, em Bom Jardim; Maciel Monteiro, em Bonito; Mercês, em Cabo; Soc. M. 8 de Dezembro, em Cabrobó; Círculo Católico, em Caruaru; Moderno, em Igarassu; Floriano, em Jaboatão; Duarte Coelho, em Olinda; Leopoldo Fróes, em Pau d’Alho; Boa Vista e Cinema da Força Policial do Estado, em Recife; Cardoso, em Rio Formoso; Beltrão, em São Caetano; Municipal, em São Lourenço.

Mas foi durante o período de entressafra do cinema recifense que chegamos a conhecer uma das maiores atividades cinematográficas voltadas para a modernização da educação no Estado: a instituição do cinema educativo, promovido pelo INCE. Ele, na interventoria de Agamenon Magalhães, foi aplicado em seu programa de educação, o qual encontrava respaldo na própria convicção de Getúlio Vargas de tentar integrar o Brasil a partir das imagens. Agamenon, no entanto, tentou, com ele, criar uma ponte entre a cidade e o campo, por meio das Missões Ruralistas.

A realização pedagógica da proposta estadonovista evidenciava-se nas seguintes iniciativas: fundação de jornais escolares: 19; de clubes agrícolas escolares: 22; de bibliotecas escolares: 8; de museus escolares: 12; sessões de cinema educativo: 52; reuniões com professorado: 36; aulas práticas agrícolas de pré-orientação: 38; excursões realizadas: 24. A primeira Missão Ruralista Escolar foi feita no dia 19 de abril de 1941, em Palmares, e tinha como principal objetivo comemorar a data natalícia do presidente Getúlio Vargas. A partir dela seguiram-se mais 11 outras missões para o interior, na tentativa de integrar o Estado de Pernambuco, levando, ao mesmo tempo, a educação aos confins do interior.

As correspondências do Departamento Estadual de Imprensa e Propaganda – DEIP/PE evidenciam dois aspectos centrais do projeto pedagógico imagético em Pernambuco. O primeiro refere-se ao esforço do DIP nacional, coordenado por Lourival Fontes, de institucionalizar o cinema e outros meios técnicos como instrumentos de difusão e de educação cívica. O segundo aspecto diz respeito à circulação desses filmes por todo o território nacional.

Produzidos ou distribuídos pelo INCE e pelo DIP, eles tinham o objetivo de levar aos confins do país, para além da propaganda do regime, os ideais de civilização, modernização e educação. Isso ocorria tanto por meio do cinema educativo nas escolas, quanto através dos cinemas de bairro, da imprensa e do rádio, veículos decisivos na remodelação dos costumes, do cotidiano e da vida urbana.

Nesse sentido, o Estado construído entre 1930 e 1945 foi fundamentalmente centralizador. Buscou reconfigurar o capital nacional sem romper com a dependência do capitalismo internacional, ao mesmo tempo em que reprimia o movimento operário. Para isso, valeu-se de um cinema educativo com viés autoritário e de uma polícia política repressiva, visando consolidar uma “modernização conservadora”: mudar para manter.

Cláudio Jorge Gomes de Morais é Mestre em Educação pela Universidade Federal de Pernambuco e Doutor em Distúrbios do Desenvolvimento pela Universidade Presbiteriana Mackenzie

*Este texto reflete a visão pessoal do autor.

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