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Desemprego e queda da renda ampliam pessimismo dos argentinos com governo Milei

O descontentamento com os rumos da economia ganhou força entre os argentinos e já aparece de forma consistente nas principais pesquisas de opinião pública. Cerca de sete em cada dez entrevistados avaliam negativamente a situação econômica do país, enquanto a perda de poder de compra, o desemprego e a dificuldade para manter as despesas básicas passaram a ocupar o centro das preocupações sociais.

A percepção negativa atravessa as divisões políticas. A insatisfação alcança tanto eleitores que apoiaram o presidente Javier Milei quanto setores que votaram na oposição nas eleições de 2023, indicando que as dificuldades relacionadas à renda e ao mercado de trabalho passaram a ser percebidas como problemas que ultrapassam as disputas ideológicas.

Levantamento nacional realizado entre o fim de julho e o começo de agosto pela Atlas Intel em parceria com a Bloomberg aponta uma desaprovação de 62,4% ao governo Milei. O índice representa uma alta de 4,4 pontos percentuais em relação às medições anteriores. A mesma pesquisa mostra que 70% dos entrevistados enxergam de forma negativa a situação econômica argentina.

Os números também aparecem no levantamento mensal da Universidade de San Andrés (UdeSA). Segundo a pesquisa, 69% dos argentinos demonstram insatisfação com a situação geral do país, enquanto 29% manifestam satisfação. Para 57%, a realidade argentina piorou nos últimos 12 meses. A avaliação do governo segue no mesmo sentido: 35% aprovam a administração Milei e 61% a desaprovam.

Outro levantamento, realizado pelo Observatório Sociopolítico e Eleitoral da Faculdade de Psicologia da Universidade de Buenos Aires (UBA), encontrou 58% de desaprovação ao desempenho do governo. Na avaliação da economia nacional, 59% classificaram o cenário como ruim ou muito ruim.

Trabalho e salário no centro das preocupações

A deterioração do mercado de trabalho aparece como uma das principais razões para o aumento do descontentamento. Na pesquisa da UBA, a falta de trabalho e o desemprego foram apontados por 61% dos entrevistados como um dos principais problemas enfrentados pelo país. Os baixos salários aparecem logo depois, mencionados por 57%.A insegurança e a criminalidade foram citadas por 46%, enquanto a corrupção chegou a 45%.

Os dados mostram diferenças entre grupos políticos, mas também revelam pontos de convergência. Entre os eleitores de Milei, segurança e criminalidade aparecem como preocupação predominante. Já entre os que apoiaram o então candidato peronista Sergio Massa, as medidas de austeridade adotadas pelo atual governo ganham maior peso.

Mesmo assim, desemprego e baixos salários aparecem entre as principais preocupações de ambos os grupos. A questão da renda, portanto, atravessa as preferências políticas e se transforma em um dos elementos mais amplos de insatisfação social.

Na pesquisa da UdeSA, o desemprego lidera a lista de problemas, com 39%, seguido pelos baixos salários, com 36%. Corrupção aparece com 34% e pobreza, com 30%.

Já o levantamento Atlas Intel/Bloomberg coloca a corrupção na primeira posição, com 47,7%, seguida pelo desemprego, com 46,5%. Preços elevados e inflação foram apontados por 37,4%, enquanto a situação econômica geral aparece com 32,5%.

Famílias recorrem cada vez mais ao crédito

A pressão sobre a renda também se manifesta no aumento do endividamento das famílias. Mais de 20 milhões de argentinos possuem dívidas com bancos, carteiras digitais, empresas de cartões de crédito e outras instituições que oferecem empréstimos pessoais.

Dados oficiais indicam que os atrasos representam atualmente 17,5% do total de empréstimos, uma proporção muito superior aos 4,2% registrados no início do governo Milei.

Um levantamento divulgado neste mês pela consultoria Zentrix reforça esse cenário. Segundo o estudo, 61,9% dos entrevistados afirmaram ter contratado algum tipo de empréstimo nos seis meses anteriores. Entre eles, 53,7% disseram ter recorrido ao crédito porque a renda não era suficiente para cobrir as despesas básicas.

O aumento das tarifas e dos preços dos serviços públicos também aparece como fator relevante: 23,1% atribuíram a necessidade de contrair dívidas ao encarecimento dessas despesas.

Protestos aumentam pressão sobre Milei

Enquanto Milei defendia seu programa econômico nesta quinta-feira no Conselho das Américas, milhares de pessoas participaram de manifestações em Buenos Aires. O protesto ocorreu na Plaza de Mayo, diante da Casa Rosada, em meio às críticas ao impacto das políticas econômicas sobre salários, emprego e atividade empresarial.

Pequenos e médios empresários participaram das mobilizações com o lema de que as PMEs também fazem parte da economia argentina. Segundo os organizadores, mais de 30 mil empresas fecharam as portas durante o atual governo, enquanto mais de 410 mil empregos registrados foram perdidos.

Sindicatos e organizações sociais, entre elas a CGT, as duas correntes da CTA, a UTEP e a Ni Una Menos, também participaram dos atos. As entidades criticaram um modelo econômico que, segundo elas, estaria levando famílias a recorrer ao endividamento para conseguir pagar alimentação, aluguel e serviços essenciais.

Um documento entregue ao Ministério da Economia reivindicou medidas para conter as elevadas taxas de juros cobradas pelas instituições financeiras e a criação de programas específicos para renegociar dívidas de pequenas e médias empresas e de famílias.

Os levantamentos divulgados nas últimas semanas apontam, assim, para um cenário de crescente desgaste social. Embora existam diferenças entre os grupos políticos, desemprego, perda de renda, endividamento e dificuldade para arcar com despesas básicas aparecem como preocupações comuns e ajudam a explicar o avanço da insatisfação com os rumos da economia argentina sob o governo Milei.

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