Há algo de profundamente significativo na ideia de que vivemos uma crise epistêmica. Mas talvez seja preciso tomar essa expressão em seu sentido mais radical. Não se trata simplesmente de dizer que o mundo se tornou complexo demais e que nossa inteligência já não consegue compreendê-lo. Se vivemos uma crise ecológica, econômica, política, social e psíquica, então a própria linguagem com que experimentamos e pensamos esse mundo também é atravessada por essa crise.
O pensamento não permanece intacto diante de uma realidade em transformação. Não existe, de um lado, o mundo e, de outro, uma consciência que simplesmente tenta descrevê-lo. Pensamento e linguagem se desenvolvem conjuntamente. Em Vygotsky, a linguagem não é apenas a roupa exterior de um pensamento que já estaria pronto antes de ser pronunciado. Pensar também é aprender a organizar o mundo por meio dos signos.
Volóchinov leva essa questão ainda mais longe: todo signo é social. As palavras não são recipientes neutros nos quais despejamos ideias. Elas carregam conflitos, interesses, valores, afetos e disputas. Uma sociedade não produz apenas mercadorias, instituições e relações de poder; produz também maneiras de nomear aquilo que vive.
É justamente aí que a crise epistêmica se torna mais interessante. Uma sociedade em crise não produz apenas sofrimento: produz uma linguagem-pensamento do sofrimento. E essa linguagem, por sua vez, determinadas percepções do futuro e determinadas disposições (ou não) para agir. A questão, portanto, não é apenas reconhecer que a linguagem está em crise. É perguntar: que linguagem emerge de uma sociedade em crise?
Em Spinoza, medo e esperança são afetos expectantes. Ambos nos colocam diante do futuro. O medo é a expectativa de que um mal venha a acontecer; a esperança, a expectativa de que um bem possa realizar-se. Ambos partem, de algum modo, da insuficiência do presente e da incerteza diante do que ainda não existe. Mas essa proximidade não significa que medo e esperança produzam o mesmo mundo. A linguagem do medo não é a linguagem da esperança.
O medo possui causas reais. A precarização do trabalho, a violência, a destruição ambiental, a instabilidade econômica, o avanço de formas autoritárias de poder: nada disso é imaginário. Seria uma estupidez responder à experiência concreta do sofrimento com algum tipo de otimismo abstrato. O problema não é sentir medo. O problema começa quando o medo se transforma no princípio organizador de toda a experiência histórica.
Porque a realidade nunca é constituída por apenas uma linguagem.
Entre as mesmas contradições que produzem o medo, existem também possibilidades objetivas de transformação. Uma sociedade é, ao mesmo tempo, aquilo que ela reproduz e aquilo que ela ainda pode deixar de ser. O que está em disputa é justamente a maneira como organizamos, pela linguagem, essas duas dimensões da experiência.
Há gramáticas que fazem do mundo um espaço de impossibilidade crescente. Elas nos ensinam, todos os dias, a linguagem do fracasso, da derrota, da impotência e do colapso. Pouco a pouco, o futuro deixa de ser aquilo que ainda não aconteceu e passa a ser apenas a continuação catastrófica do presente. E há algo politicamente poderoso nisso: antes mesmo de impedir a ação, essa linguagem reduz aquilo que conseguimos imaginar como possível.
A política, então, não é apenas uma disputa entre programas econômicos, instituições ou projetos de sociedade. Ela é também uma disputa entre gramáticas. Uma disputa sobre quais palavras usamos para narrar o presente e, principalmente, sobre quais palavras conseguimos usar para anunciar aquilo que ainda não existe.
Isso não significa inventar uma realidade paralela. A esperança não consiste em fechar os olhos para as contradições do mundo. Pelo contrário: consiste em procurar, no interior dessas próprias contradições, os elementos capazes de produzir outra realidade.
Pequenas vitórias, experiências de solidariedade, novas formas de organização coletiva, conquistas aparentemente limitadas: nada disso é insignificante apenas porque não transforma imediatamente a totalidade. Cada experiência em que algo considerado impossível se torna objeto de disputa modifica também a percepção do possível.
A luta contra a escala 6×1 parece ser um exemplo disso. Seu significado não está apenas na reivindicação concreta, está no fato de que uma estrutura aparentemente natural, contra a qual milhões de pessoas apenas se resignavam, passa novamente a ser percebida como uma construção histórica — e, portanto, como algo que pode ser transformado.
Quando aquilo que parecia inevitável se torna discutível, algo muda na própria consciência. Muda a linguagem. Muda a maneira como pensamos. E talvez mude também aquilo que o corpo acredita ser capaz de fazer.
É por isso que a esperança não pode ser reduzida a um estado psicológico, a uma espécie de disposição interior do indivíduo. A esperança é também uma forma de organizar a experiência por meio da linguagem.
Uma gramática da esperança não é uma gramática do otimismo. Ela não diz que tudo vai dar certo. Não promete que a história caminha naturalmente em direção ao bem. Tampouco nega o medo, o sofrimento ou a possibilidade do fracasso.
Ela apenas recusa que o fracasso seja a única linguagem possível da realidade.
Se pensamento e linguagem se desenvolvem conjuntamente, uma mudança de chave na linguagem ( do medo para a esperança) é uma mudança na forma de pensar. E se pensamento, linguagem e corpo pertencem a uma mesma unidade — como sugere o monismo espinosano — então a disputa pela linguagem é também uma disputa pelos afetos e pela própria potência de agir. Medo e esperança deixam, assim, de ser apenas dois sentimentos individuais. Tornam-se duas maneiras de habitar o tempo.
Uma delas olha para o futuro e encontra apenas a confirmação de que tudo continuará piorando. A outra não ignora essa possibilidade, mas procura, no próprio presente, os sinais de que a história ainda não terminou.
Assim, a tarefa crítica de nosso tempo não é somente denunciar as linguagens do medo. Isso já fazemos com relativa facilidade. Talvez seja mais difícil — e mais necessário — construir uma linguagem que consiga reconhecer o horror sem transformar o horror em destino.
Uma linguagem capaz de olhar para as ruínas sem esquecer que, entre elas, os sujeitos ainda constroem coisas.
Talvez seja isso uma gramática da esperança: não a linguagem de quem acredita que o futuro será necessariamente melhor, mas a linguagem de quem se recusa a aceitar que ele já esteja decidido.
Guilherme Moraes é Cientista Político e doutorando em Literatura
*Este texto reflete a visão pessoal do autor.




