No primeiro ato da campanha de Lula ao quarto mandato, primeira-dama resgatou a própria história, falou da força coletiva das mulheres e emocionou ao lembrar a ex-primeira-dama Marisa Letícia
Janja da Silva começou falando de um sobrenome. Silva. Um nome comum, carregado por milhões de brasileiras, mas que, nas palavras da primeira-dama, deixou de ser apenas um sobrenome para se transformar em símbolo de pertencimento, resistência e força.
“Eu também nasci Silva, da Silva, Rosângela da Silva, herdei do meu pai. Antes de casar com um ‘da Silva’, Luiz Inácio Lula da Silva, eu já era uma Silva”, disse Janja, no primeiro ato da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva para um quarto mandato presidencial.
A partir de sua própria história, ela construiu uma narrativa sobre tantas outras mulheres brasileiras. As Silvas, as Marias, as Joanas, as Marieles, as Rosas, as Margaridas. Mulheres diferentes, de histórias diferentes, mas unidas por uma mesma capacidade de seguir em frente.
“Não somos só mais uma. Cada uma de nós é muita coisa. Somos muitas em uma”, afirmou.
Mães, filhas, avós, estudantes, professoras, empreendedoras, doutoras, chefes de família, mães solo. Mulheres que trabalham, cuidam, sustentam, educam, acolhem e, muitas vezes, seguram sozinhas as pontas da casa e da vida.
Para Janja, nenhuma mulher caminha completamente sozinha. Quando uma avança, leva consigo as que vieram antes, as que caminham ao seu lado e também aquelas que ainda encontrarão o caminho aberto por sua passagem.
Foi nesse ponto que o discurso ganhou um tom de memória.
Dona Marisa, a mulher por trás da história
Janja então voltou os olhos para uma Silva muito especial: Marisa Letícia Lula da Silva, primeira esposa de Lula.
A homenagem trouxe à lembrança mulheres que, embora não estivessem nos palanques, nas fábricas ou à frente dos sindicatos, foram fundamentais para que os homens pudessem estar nas ruas lutando por melhores salários e mais dignidade.
E, entre essas mulheres, estava dona Marisa.
Janja lembrou que, durante as grandes mobilizações dos trabalhadores no ABC paulista, no fim dos anos 1970, muitas mulheres permaneceram nos bastidores, sustentando suas famílias enquanto seus maridos participavam das greves e da luta sindical.
“Essas mulheres, lideradas por dona Marisa, foram uma força importante e são pouco lembradas”, afirmou.
É nesse silêncio da história que Janja encontrou uma forma de fazer justiça à memória de Marisa.
Ela lembrou também um gesto aparentemente simples, mas carregado de significado: foi dona Marisa quem bordou a primeira bandeira do Partido dos Trabalhadores.
A estrela vermelha, que se tornaria um dos símbolos mais conhecidos do partido, nasceu também das mãos de uma mulher que raramente esteve no centro das fotografias, mas que ajudou a construir, com linha, tecido, cuidado e presença, parte da memória política que acompanharia Lula por décadas.
“A estrela da nossa bandeira, do nosso partido, traz na nossa memória o cuidado e o carinho de dona Marisa”, disse Janja.
E completou, em tom de homenagem: “É a ela que eu dedico toda a minha admiração.”
Cuidar também é política
Depois de olhar para o passado, Janja falou do futuro que deseja para as mulheres brasileiras.
Um país em que as mulheres possam ocupar os espaços que desejarem, estudar, trabalhar, ter moradia, acesso à saúde, terra para plantar e oportunidades para construir seus próprios sonhos.
Mas também um país em que cuidar não seja uma tarefa exclusivamente feminina.
Janja defendeu um governo que cuide das crianças para que as mães possam trabalhar e estudar tranquilas; que cuide dos adolescentes para que permaneçam na escola; que cuide da saúde das mulheres em todas as fases da vida.
E fez uma distinção importante: não basta governar para as mulheres. É preciso governar com elas.“
Queremos alguém que siga caminhando e cuidando com as mulheres para que as mulheres também tenham tempo e oportunidade para se cuidar, para descansar, para se divertir”, afirmou.
“Somos as guardiãs da democracia”
No final, a fala ganhou tom eleitoral.
Janja lembrou que as mulheres são maioria da população e do eleitorado e afirmou que terão papel decisivo na disputa presidencial de 2026.
“Como em 22, somos nós, as mulheres desse Brasil, que irão te eleger novamente”, declarou, dirigindo-se a Lula.
A frase encerrou um discurso que começou com um sobrenome comum e terminou com uma promessa de protagonismo coletivo.Silvas, Marias, Joanas, Marieles. Mulheres que vieram antes, mulheres que estão aqui e mulheres que ainda virão.




