Por Severino Angelino – Psicanalista
Todos os dias, alguém aparece no consultório dizendo a mesma frase, com pequenas variações: “Eu não aguento mais, mas não posso parar.” É quase sempre dita com vergonha. Como se cansar fosse falha de caráter. Como se exaustão fosse falta de força de vontade.
E é exatamente aí que mora o primeiro engano que precisamos desfazer: o burnout não é fraqueza. É sintoma. E sintoma, na psicanálise, nunca fala sozinho, ele fala por um contexto inteiro que preferimos não escutar.
Quando alguém desenvolve burnout, o corpo entra em greve antes da mente admitir que precisa parar. Insônia, taquicardia, apatia, irritação sem motivo aparente, choro que chega do nada. São sinais de um sistema que não aguenta mais operar no automático, mas que foi treinado, a vida inteira, para não parar.
Aqui já aparece uma pista importante: se o corpo precisa gritar tão alto para ser ouvido, é porque a palavra, o pedido de ajuda, o “eu não estou bem”, não encontrou espaço para ser dito antes. Isso não é um defeito pessoal. É o resultado de um ambiente, familiar, profissional, cultural que ensinou a esconder o cansaço como se fosse pecado.
Vivemos numa cultura que celebra a produtividade como valor moral. Trabalhar muito virou sinônimo de ser alguém que “vale a pena”. Descansar, por outro lado, ainda carrega um resquício de culpa, quase como se fosse desperdício.
Nesse cenário, quando a pessoa adoece de tanto trabalhar, a primeira pergunta que ela mesma se faz é: “o que há de errado comigo?” Raramente ela pergunta: “o que há de errado com o sistema que me fez chegar até aqui?”
Essa inversão é perigosa. Ela transforma um problema coletivo em uma falha individual, e isso tem uma função bem clara: alivia a sociedade de qualquer responsabilidade e coloca todo o peso e todo o tratamento nas costas de quem já está exausto.
Não é bem assim, e seria simplista demais dizer isso. Cada pessoa carrega uma história única, uma forma própria de lidar com cobrança, com limites, com a dificuldade de dizer não. Duas pessoas na mesma empresa, sob a mesma pressão, podem ter desfechos diferentes, uma adoece, outra não. Isso tem a ver com a história de cada uma, com o que aprenderam sobre merecimento, sobre pausa, sobre pedir ajuda.
Mas isso não anula o outro lado da equação. A pergunta certa não é, “é individual ou é social?” é: como o individual e o social se encontram e se alimentam mutuamente até o corpo não suportar mais?
O burnout nasce exatamente nesse cruzamento. De um lado, uma pessoa que talvez tenha aprendido cedo que só é amada, reconhecida ou segura quando produz. Do outro, um ambiente de trabalho e uma cultura inteira que reforçam essa crença todos os dias, com metas inalcançáveis, jornadas sem fim e a fantasia de que descanso é luxo.
Um dos pontos mais delicados e mais escondidos é que o burnout costuma vir acompanhado de um enorme silêncio. A pessoa não fala porque teme ser vista como fraca, substituível, “a que não aguentou”. E o ambiente, por sua vez, raramente pergunta com sinceridade “como você está?” antes que seja tarde.
Esse silêncio compartilhado é o verdadeiro caldo de cultura do adoecimento. Ele isola quem sofre exatamente no momento em que mais precisaria de rede, de escuta, de pausa legitimada.
Talvez a pergunta do título mereça uma resposta mais honesta: o burnout é sintoma individual e social, sempre. Ele nasce dentro de uma pessoa, mas é fabricado, em grande parte, fora dela. Tratar isso apenas como “questão de autocuidado” é higienizar um problema estrutural. Tratar isso apenas como “culpa do sistema” é apagar a singularidade de cada história.
O caminho possível está em olhar para os dois lados ao mesmo tempo: cuidar da pessoa sem tirar dela a responsabilidade sobre sua própria vida, mas sem também deixar que ela carregue sozinha o peso de um mundo que adoeceu junto com ela.
Se você se reconheceu nessas linhas, talvez o primeiro passo não seja perguntar “o que há de errado comigo?”, mas sim: “há quanto tempo eu não paro para escutar o que meu corpo está tentando me dizer?”
Severino Angelino é Psicanalista, Bel. em Direito, Escritor e Graduando em Fonoaudiologia. Autor de ‘O Abismo Invisível: Depressão’ – Um olhar sobre a depressão na adolescência e a importância do apoio familiar.
*Este texto reflete a visão pessoal do autor.




