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Farmar aura: o novo nome de um velho desejo

Por Severino Angelino – Psicanalista

“Farmar aura” virou a gíria mais repetida entre adolescentes e já saiu das telas para as ruas. Por trás do humor, a expressão nomeia algo que a psicanálise conhece bem: a busca por reconhecimento no olhar do outro.

Há uma gíria circulando entre adolescentes que, à primeira vista, soa como puro nonsense: “farmar aura”. A expressão nasceu no vocabulário dos videogames, “farmar” é repetir tarefas para acumular recursos, pontos, experiência. Foi transplantada para a vida social.

“Aura”, nesse novo uso, é a energia, o estilo, a presença que uma pessoa consegue transmitir. Juntas, as palavras descrevem um comportamento específico: agir de modo a acumular admiração, carisma, reconhecimento, como quem sobe de nível em um jogo, só que o jogo é a própria imagem social.

A gíria pegou depois que um garoto indonésio de onze anos viralizou dançando na proa de uma canoa durante um festival tradicional. O vídeo, com sua mistura de simplicidade e presença magnética, gerou comentários do tipo “esse cara está farmando aura”. A expressão se espalhou entre a Geração Z e a Geração Alfa.

Hoje já não é só coisa de internet. Virou vocabulário do dia a dia e, no Brasil, deu origem a campeonatos presenciais em praças e parques, onde jovens disputam quem tem mais “aura” através de fantasias, performances e ousadia.

É tentador descartar o fenômeno como bobagem passageira, mais um item na lista de modismos que a internet produz e descarta em meses. Mas, como psicanalista, prefiro escutar o que esse tipo de linguagem revela, porque gíria de jovem quase sempre é sintoma disfarçado de humor.

O que “farmar aura” nomeia, com uma precisão que os próprios adolescentes talvez não percebam, é algo que a psicanálise conhece bem: a constituição do sujeito passa pelo olhar do outro. Desde Lacan, sabemos que o eu se forma numa relação especular, nos vemos como imaginamos que os outros nos veem.

Isso não é novidade da era digital. O que é novo é a quantificação explícita desse processo: pontos de aura, “aura +100”, “farmou aura demais”. A validação social, que sempre foi uma corrente subterrânea da vida psíquica adolescente, agora tem um placar visível, um sistema de pontuação comentado abertamente.

Isso pode até parecer mais honesto do que a hipocrisia de fingir que não nos importamos com o que os outros pensam. Mas há um risco importante: quando a própria existência é narrada como estratégia de acumulação de pontos, o vínculo entre o gesto e o sujeito que o pratica se esgarça. Não se dança na proa de um barco porque a dança convoca algo de dentro, dança-se para que a cena seja lida, comentada, “farmada”. A experiência deixa de ser fim em si mesma e passa a ser insumo para uma imagem consumida por terceiros.

A adolescência sempre foi, estruturalmente, o momento de maior tensão entre quem se é e quem se gostaria de ser. Entre o eu ideal, aquela imagem onipotente e narcísica que a criança um dia projetou de si mesma e o ideal do eu, a instância que negocia essa fantasia com as exigências do grupo social. “Farmar aura” é, nesse sentido, uma tentativa de fabricar artificialmente a distância entre os dois: performar o eu ideal em tempo real, diante de plateia, com métricas.

O detalhe interessante é a distinção que os próprios jovens fazem entre o “alfa”, aquele que tem presença, que gera respeito por onde passa e o “beta”, descrito como alguém inseguro, que depende da aprovação alheia e evita confrontos por medo do julgamento. É uma dicotomia rústica, quase caricatural. Mas reproduz de forma crua uma angústia estrutural: o medo de ser visto como fraco, dependente, “sem aura”, ou seja, sem valor próprio aos olhos do grupo.

Não se trata de patologizar uma gíria nem de tratar toda uma geração como narcisista em sentido clínico, seria um erro de diagnóstico e um desserviço. A maioria dos adolescentes que fala em “farmar aura” está apenas nomeando, com o humor e a ironia típicos da idade, algo que sempre existiu: o desejo de pertencer, de ser notado, de ter valor diante do olhar do outro.

Há inclusive algo saudável nos campeonatos presenciais que a gíria inspirou, jovens saindo das telas, se encontrando fisicamente, competindo por criatividade e carisma em praça pública. Isso é, no fundo, sociabilidade.

O ponto de atenção, para pais, educadores e para quem escuta jovens em consultório, não é a gíria em si, mas o que ela pode encobrir quando a busca por “aura” se torna compulsiva, quando cada gesto só existe em função de como será registrado, comentado, pontuado.

Aí, sim, vale perguntar: o que sobra do sujeito quando toda experiência é convertida em moeda de reconhecimento alheio? A resposta, suspeito, é a mesma de sempre: o que sobra é a angústia de nunca ter aura suficiente, porque nenhum placar de admiração alheia satisfaz de fato o vazio que só um vínculo verdadeiro pode preencher.

Severino Angelino é Psicanalista, Bel. em Direito, Escritor e Graduando em Fonoaudiologia. Autor de ‘O Abismo Invisível: Depressão’ – Um olhar sobre a depressão na adolescência e a importância do apoio familiar.*Este texto reflete a visão pessoal do autor.

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