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Chanceler diz que Brasil enfrenta ataque à soberania e acusa Eduardo Bolsonaro de atuar contra interesse nacional

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira — Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou que o Brasil vive um “desafio histórico à soberania” diante das medidas tarifárias adotadas pelos Estados Unidos e atribuiu ao ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro a liderança de uma articulação que, segundo ele, atua contra os interesses do país. As declarações foram publicadas em artigo no jornal O Globo desta sexta-feira (24), intitulado “Suas Excelências, os fatos, na crise do tarifaço”.

No texto, o chanceler sustenta que as tarifas impostas pelo governo norte-americano têm motivação política e representam uma tentativa de ingerência nos assuntos internos do Brasil. Para Vieira, “não cabem ambiguidades nem falsas equivalências” diante da ofensiva iniciada após a carta enviada pelo presidente Donald Trump, em julho de 2025, que, segundo ele, continha “claras ameaças à soberania e à democracia brasileiras”.

Com método, Eduardo Bolsonaro construiu uma rota que resultou no autoexílio e o alçou a expoente da direita brasileira com capacidade de influenciar a visão política da Casa Branca, a ponto de o governo Trump pressionar o Brasil para defender o seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), no processo em que foi condenado por tramar um golpe de Estado

“O Brasil vem sendo atacado há mais de um ano, e o governo tem sabido defender o interesse nacional com diplomacia e pragmatismo, mas também com firmeza e clareza”, escreveu o ministro. Segundo ele, o país precisa de “clareza” diante de um cenário em que se tenta impor, “de fora para dentro”, ameaças, tarifas e “bravatas”.

Vieira afirma que a cronologia dos acontecimentos demonstra quem seriam os responsáveis pela crise. “A linha do tempo da atual ofensiva contra o Brasil não deixa margem a nenhuma dúvida quanto aos brasileiros que trabalharam contra o interesse nacional para obter a impunidade daqueles que fracassaram em uma tentativa de golpe de Estado”, escreveu. Em seguida, cita nominalmente Eduardo Bolsonaro, afirmando que o ex-deputado e seus aliados “continuam a trabalhar pela ingerência externa no Brasil”.

O ministro também rebate críticas de que o governo não buscou diálogo com Washington. Segundo ele, o Brasil realizou mais de 30 contatos e reuniões com autoridades norte-americanas para discutir as tarifas, especialmente durante a investigação conduzida com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos.

De acordo com Vieira, a investigação foi utilizada como alternativa após o tarifaço original ser considerado ilegal pela Suprema Corte norte-americana. Ele ressalta que o mecanismo passou a ser empregado não apenas contra o Brasil, mas também contra outros parceiros comerciais dos Estados Unidos, citando a nova tarifa adicional de 12,5% anunciada pelo governo norte-americano.

No artigo, o chanceler afirma que os Estados Unidos nunca demonstraram disposição para uma negociação equilibrada. Segundo ele, Washington chegou a propor ao Brasil uma abertura unilateral e exclusiva de setores industriais brasileiros, sem oferecer contrapartidas comerciais.

“O que se chegou a propor ao Brasil era uma espécie de rendição”, escreveu. Vieira cita o caso do etanol como exemplo, afirmando que os Estados Unidos exigiam redução das tarifas brasileiras enquanto se recusavam a discutir as taxas superiores a 80% aplicadas ao açúcar brasileiro.

O ministro argumenta ainda que qualquer concessão exclusiva aos Estados Unidos violaria compromissos internacionais assumidos pelo Brasil na Organização Mundial do Comércio (OMC) e poderia ser contestada judicialmente pelos setores econômicos afetados.

“Não se tratava de uma negociação, e sim da tentativa de imposição da lei do mais forte”, afirmou.

Apesar das críticas, Vieira diz que o governo brasileiro permanece disposto a negociar. Segundo ele, a diplomacia continuará buscando ampliar as exceções às tarifas que atingem centenas de produtos brasileiros, mas sem aceitar pressões ou ameaças.

“Continuamos dispostos a negociar, mas não seremos intimidados por novas ameaças e falsas alegações”, escreveu.

Ao encerrar o artigo, o chanceler volta a responsabilizar brasileiros que, segundo ele, atuam junto a setores da extrema direita internacional para pressionar o país.

“Vamos continuar a trabalhar na busca de soluções para uma crise cujos autores são brasileiros que operam abertamente contra o país e que desfrutam de proteção e apoio político de setores da extrema direita internacional. Diante dos prejuízos causados, não cabe omitir-se em relação aos promotores dessa ingerência. Afinal, o Brasil e os brasileiros estão pagando caro por essa irresponsabilidade”, conclui Mauro Vieira.

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