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Influenciadores como novos ídolos: o que projetamos neles

Por que seguimos vidas editadas como se fossem espelhos — e o que isso revela sobre nossas próprias faltas.

Por Severino Angelino – Psicanalista

Há um vazio no peito das multidões, e ele tem tela, wi-fi e algoritmo.

Não é novidade que o ser humano precisa de ídolos. Precisou de deuses, de reis, de santos, de estrelas de cinema. O que mudou não foi a necessidade — foi o endereço. Hoje ela mora no feed. E o que era, antes, uma distância sagrada entre o ídolo e o fiel — o altar, o palco, a tela do cinema — virou uma proximidade artificial e perigosa: alguém que parece estar ali, ao seu lado, te chamando pelo nome, comentando a sua vida enquanto você comenta a dele.

É essa ilusão de intimidade que faz do influenciador um fenômeno psíquico tão potente. E é aí que mora a pergunta que realmente importa, a que ninguém costuma fazer: o que estamos projetando nessas pessoas?

Em psicanálise, projeção é o mecanismo pelo qual colocamos no outro aquilo que não conseguimos, ou não queremos, reconhecer em nós mesmos. Idealizamos alguém não pelo que essa pessoa é, mas pelo que ela nos permite não sentir.

O influenciador perfeito — corpo em forma, rotina organizada, casamento feliz, dinheiro fluindo, viagens intermináveis — não é admirado por ser real. É admirado por ser possível. Ele carrega, por nós, a fantasia de que a falta pode ser resolvida. De que existe, em algum lugar, alguém que já chegou lá. E se alguém chegou, talvez exista um caminho.

Só que esse caminho é editado. Cortado. Iluminado. O que vemos não é uma vida: é um recorte cirúrgico de vida, produzido justamente para preencher o vazio de quem assiste. E quanto maior o nosso vazio, maior a nossa fome por esse recorte.

Não seguimos influenciadores. Alimentamos, com eles, uma parte nossa que não tem espaço para existir em outro lugar.

O que torna esse ídolo diferente de todos os outros da história é a sensação de proximidade. Ninguém achava que conhecia pessoalmente uma estrela de Hollywood dos anos 50. Hoje, é comum ouvir: “eu sinto que ele é meu amigo”, “ela parece tão real”, “eu já acordo vendo os stories dela”.

Essa é a chamada relação parassocial: um vínculo unilateral, em que uma pessoa investe emoção, tempo e identificação em alguém que nem sabe que ela existe. Não é fraqueza sentir isso — é um mecanismo humano antigo, sequestrado por uma tecnologia nova. Nosso cérebro não foi desenhado para distinguir com clareza um rosto na tela de um rosto na sala. Para o sistema nervoso, presença repetida é vínculo. E Influenciadores como novos ídolos: o que projetamos neles pede confiança. E confiança, sem crítica, vira rendição.

É por isso que discursos de autoajuda, opiniões políticas e recomendações de produtos, quando ditos por um rosto “íntimo”, pesam mais do que argumentos bem fundamentados de um desconhecido especialista. Não é sobre lógica. É sobre transferência.

Toda geração idolatra o que lhe falta. Se hoje o ídolo é alguém que ostenta liberdade, corpo, dinheiro e autoestima em doses industriais, é porque essas são exatamente as feridas abertas do nosso tempo: a insegurança financeira crônica, a solidão disfarçada de conectividade, a ansiedade com a própria imagem, a exaustão de tentar dar conta de tudo sozinho.

O influenciador não cria essas feridas. Ele as encontra já abertas — e sabe, consciente ou intuitivamente, exatamente onde tocar.

Isso não faz dele um vilão automático, nem de quem o segue um ingênuo. Faz de nós, coletivamente, uma sociedade carente de referências mais sólidas — e essa carência é aproveitada por uma economia inteira construída sobre likes, engajamento e a manutenção contínua do desejo de sermos como o outro.

Talvez o convite mais urgente não seja parar de admirar. Admirar faz parte de sermos humanos. O convite é perguntar: o que essa pessoa representa para mim? Que falta ela está preenchendo? E, principalmente: o que eu faria com o tempo, a energia e a fé que dedico a ela, se dedicasse a mim mesmo?

Porque, no fim, todo ídolo bem-sucedido é aquele que nos faz esquecer, por alguns minutos por dia, de que também temos — ou tivemos, ou podemos ter — uma vida que vale a pena ser vivida em primeira pessoa, sem filtro, sem edição e sem plateia.

A tela vai continuar acesa. A pergunta é: quem estamos deixando morar dentro dela — e o que sobrou de nós, do lado de fora.

Severino Angelino é Psicanalista, Bel. em Direito, Escritor e Graduando em Fonoaudiologia. Autor de ‘O Abismo Invisível: Depressão’ – Um olhar sobre a depressão na adolescência e a importância do apoio familiar.

*Este texto reflete a visão pessoal do autor.

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