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Quando a notoriedade substitui a integridade: o retrato de uma sociedade em crise

Por Severino Angelino

Há algo profundamente inquietante na sociedade contemporânea: deixamos de perguntar quem merece ser admirado e passamos a perguntar quem consegue atrair mais atenção. O prestígio, antes associado ao caráter, à competência e à contribuição social, foi progressivamente substituído pela lógica da exposição permanente. Hoje, não raramente, o escândalo rende mais reconhecimento do que a honestidade, a polêmica produz mais audiência do que o conhecimento e a aparência vale mais do que a essência. Quando a fama se torna um fim em si mesma, a integridade deixa de ser requisito e passa a ser apenas um detalhe.

Esse fenômeno não surgiu por acaso. Vivemos sob a influência de uma cultura que recompensa o impacto imediato, transforma controvérsias em entretenimento e mede a importância das pessoas por métricas de engajamento. As redes sociais amplificaram esse modelo ao privilegiar aquilo que desperta reações rápidas, ainda que à custa da verdade, do respeito ou da responsabilidade. O problema não está na tecnologia, mas na inversão de valores que ela evidencia: quanto mais uma sociedade aplaude o espetáculo, menos espaço sobra para o exemplo.

Sob a perspectiva da psicanálise, esse cenário revela um sujeito cada vez mais dependente do olhar do outro para sustentar sua própria existência. O desejo legítimo de reconhecimento foi capturado pela necessidade compulsiva de aprovação. Em vez de construir uma identidade sólida, muitos passam a construir uma imagem consumível. O resultado é uma cultura em que parecer importa mais do que ser, na qual o vazio subjetivo tenta ser preenchido por curtidas, seguidores e aplausos que, por natureza, são passageiros. Nenhuma validação externa consegue substituir uma identidade que não foi construída internamente.

O efeito mais preocupante dessa inversão de valores recai sobre as novas gerações. Crianças e adolescentes aprendem muito mais pelo que a sociedade celebra do que pelos discursos que ela profere. Quando figuras públicas alcançam notoriedade por comportamentos irresponsáveis, desrespeitosos ou eticamente questionáveis, transmite-se uma mensagem silenciosa, porém poderosa: o importante não é a forma como se chega ao sucesso, mas apenas chegar a ele. Essa lógica corrói referências, enfraquece valores e normaliza a ideia de que a visibilidade justifica qualquer atitude.

Uma sociedade não entra em crise apenas quando perde sua estabilidade econômica ou política. Ela entra em crise quando perde a capacidade de distinguir admiração de entretenimento, influência de responsabilidade e fama de mérito. Ainda há tempo para mudar essa trajetória, mas isso exige uma escolha coletiva: valorizar menos quem apenas ocupa espaço e reconhecer mais quem transforma vidas por meio do conhecimento, da ética e do compromisso com o bem comum. Afinal, as referências que escolhemos hoje revelarão, inevitavelmente, a sociedade que estamos construindo para amanhã.Crie imagem Ilustrativa

Severino Angelino é Psicanalista, Bel. em Direito, Escritor e Graduando em Fonoaudiologia.

*Este texto reflete a visão pessoal do autor.

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