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Nazílio, o passador de filmes

Era alto, beirando 1,80m, de tez morena, magro, vestia-se quase sempre calça caqui. Morava com sua mulher, Mariinha, e seu filho Zé, numa casa nos fundos do cinema Trianon, com entrada à esquerda do cinema, ladeando o muro que o separava do Bar do Orlando. Isto desde os tempos de 1953, praça Gabino Besouro, hoje praça Marques. O nome: somente Nazílio.

A figura serena, que calçava sandália “showboi” (ou xô boi) com solado de pneu era uma das figuras mais importantes do cinema Trianon, onde todas as noites, sempre as 20 horas, abastecia as duas máquinas que projetavam filmes na grande tela, para deleite de quase 700 expectadores (quando todas as cadeiras ocupadas), ou mesmo em dias considerados fracos de frequentadores (as terças-feiras).

“Seu” Nazílio como gostava de ser chamado começava os trabalhos no cinema, que também tinha o título de teatro como sempre dizia Claudir Aranda Valeriano (o Dinho), genro e gerente do proprietário José Barbosa, logo pela tarde. Repassava todas as latas que continham as fitas cinematográficas, adicionava os cinejornais da semana (da Cinedistri de Oswaldo Massaini, do Canal 100, de Carlos Niemeyer), os “trailer” (prévias) antes das sessões, que anunciavam e propagavam os próximos filmes. Trabalho cansativo, extenuante. Não podia misturar as películas.

Descanso mesmo, só depois das sessões, quando entre 22 e 23 horas, no banco da praça em frente ao cinema, ainda tinha forças para conversar com alguns amigos. Ou mesmo comentar o filme que tinha passado a pouco na tela do Trianon. Aí, conseguia distinguir atores como Burt Lancaster, Errol Flynn, Gina Lollobrigida, Sophia Loren, Gary Cooper, John Wayne, Humphrey Bogart, James Stewart, Libertad Lamarque.

E filmes, não cansava de elogiar E o Vento Levou, 100 Rifles, Os Dez Mandamentos, Quo Vadis, Sansão e Dalila, Cleópatra, E Deus Criou a Mulher, mesmo sem conseguir ler as legendas, tanto por ser quase analfabeto como pela distância que ficava de seu canto até a tela. Gostava também dos filmes nacionais, quando sempre sozinho, ria com as peripécias de Ankito, Oscarito, Grande Otelo; gostava de Eliane, Adelaide Chioso, Renata Fronzi, José Lewgoy, Cyll Farney, Zezé Macedo.

Só uma coisa o tirava do sério, principalmente nas noites de segundas-feiras, dia em que a frequência era quase em sua totalidade de frequentadores do sexo masculino. Havia uma explicação: os filmes cowboys, westerns, do oeste americano eram exibidos nesses dias – daí a lembrança de Rock Lane, Hopalong Cassidy, Tim Holt, John Way, Henry Fonda, Audie Murphy, Charles Bronson – era quando a fita quebrava e um clarão surgia em toda a tela de projeção: os frequentadores a um só som explodiam, batiam nas cadeiras, pulavam de raiva, assoviavam e xingavam de todo o nome Nazílio, muitas vezes querido. Imediatamente as luzes do cinema eram acesas e o Dinho, com as mãos para trás, saía entre as cadeiras e olhando quem bagunçava.

Neste dia “seu” Nazílio era repreendido.

Nazílio vivia para o cinema Trianon. De tanto assistir filmes, precisou usar óculos. “A vista ficou cansada”, dizia ele. Mas, tinha outra paixão – a Associação Sportiva de Arapiraca, o ASA, que somente podia desfrutá-lo nas tardes de domingo no Poeirão (quando a Sportiva jogava sempre as 15 horas), visto não haver atividades no seu trabalho naquele horário. Em pé, logo na entrada do estádio e encostado no alambrado de madeira, se deleitava em ver os ídolos daqueles tempos – Bió, Panquela, Curau, Ceba, Lourinho, Generosa, Santinho, Catenga, Bala, Acebílio, o goleiro Luizinho, Cecé (os dois de 1953), Zé Novinho, Zé Mago, Tião, Filica. Frustação: nunca viu seu ASA ser campeão. Somente, tempos depois, já como Agremiação Sportiva Arapiraquense, mas com a mesma sigla, o ASA tornou-se campeão alagoano. O título conquistado em 1953 veio a ser reconhecido muito tempo depois, graças ao advogado e professor José Pereira Neto.

Sua profissão, que muitos diziam que era um emprego de “passador de filmes” trouxe-lhe muitos amigos, como a Irene (que vendia bilhetes para o cinema), o vizinho Orlando, o comissário de menores Benildo Medeiros, o Antônio da Gaba (Antônio Barbosa – que morreu tragicamente sentado no mesmo banco da praça em que gostava de frequentar após a exibição de filmes), dona Adélia (que tinha uma bomboniere nas dependências do cinema).

Durante algum tempo, porém, o cinema Trianon passou a servir de palco para shows de calouro; uns, comandado pelo artista J. Sá, outros, por Jarbas Lúcio. Eram os matinés de sábado, começando as 14 horas: jovens da terra, sonhando com o estrelato em outros centros mais adiantados, demonstravam seus dotes artísticos. Quem sabe, alguém de fora, um empresário qualquer não aparece e os leva para o sul do país? Não custa tentar!

Outro momento de descanso para o passador de filmes era quando Arapiraca recebia um artista (como era chamado à época) de fora e se apresentava no palco do Trianon – por ali passaram Roberto Carlos, Cauby Peixoto, Nelson Gonçalves, Wanderley Cardoso, Jerry Adrani, Luís Gonzaga, Wanderleia, Ângela Maria, Dalva de Oliveira, Altemar Dutra.

As fitas dos filmes contratados par exibição no cinema dormiam nas latas guardadas na sala de “seus” Nazílio.

Com o fechamento do cinema Trianon, a ascensão da televisão, a chegada da internet, Nazílio, o “passador de filmes” do cinema Trianon desapareceu. E o som que surgia alto, limpo, por trás das cortinas do palco do cine-teatro Trianon, silenciou.

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