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Le Pen confirma candidatura à Presidência da França mesmo após condenação e uso de tornozeleira eletrônica

A líder da extrema direita francesa, Marine Le Pen, confirmou nesta terça-feira (7) que disputará pela quarta vez a Presidência da França, apesar de continuar condenada por uso indevido de recursos públicos e de ter sido obrigada pela Justiça a cumprir pena com tornozeleira eletrônica. A eleição presidencial está marcada para 2027 e a decisão da Corte de Apelação francesa abriu um novo capítulo na corrida pelo Palácio do Eliseu.

Em entrevista ao telejornal da TF1, Le Pen afirmou que não pretende desistir da disputa e garantiu que recorrerá à mais alta instância do Judiciário francês. Segundo ela, o novo recurso deve suspender temporariamente a execução da pena, permitindo que mantenha sua agenda política sem as restrições impostas pela monitoração eletrônica.

“Hoje à noite, eu sou candidata. Não vou mudar de ideia”, declarou a dirigente do partido Reagrupamento Nacional, legenda que aparece à frente das pesquisas de intenção de voto para a sucessão do presidente Emmanuel Macron.

A condenação teve origem em março de 2025, quando a Justiça de primeira instância considerou Le Pen culpada por desviar recursos destinados ao Parlamento Europeu. Na ocasião, ela recebeu pena de dois anos de prisão e cinco anos de inelegibilidade. Agora, a Corte de Apelação reduziu o período de inelegibilidade, mas manteve a condenação relacionada ao desvio de aproximadamente 474 mil euros entre 2009 e 2016, período em que exercia mandato como eurodeputada.

Segundo a acusação, os recursos teriam sido utilizados para remunerar assessores ligados ao partido em atividades que não correspondiam ao trabalho parlamentar. Os investigadores também sustentam que Le Pen incentivou outros parlamentares da legenda a adotar o mesmo esquema, desviando milhões de euros para aliviar as despesas do Reagrupamento Nacional.

Com a decisão judicial, a campanha presidencial ganha novos contornos. A primeira agenda oficial de Le Pen está prevista para esta quarta-feira, na região de La Sarthe, no oeste da França, onde participará de compromissos públicos ao lado de Jordan Bardella, presidente do partido e apontado até então como possível candidato caso a líder permanecesse impedida de concorrer. Logo após a entrevista, ela também lançou seu site e o primeiro material oficial da campanha, afirmando que “o povo francês terá a palavra final”.

O cenário político europeu também foi marcado por outro movimento envolvendo lideranças da direita. No Reino Unido, Nigel Farage anunciou sua renúncia ao mandato parlamentar e informou que disputará uma eleição suplementar, convocada após a repercussão negativa de denúncias relacionadas ao recebimento de presentes não declarados.

Analistas avaliam que a insistência de Le Pen em disputar a Presidência demonstra que ela ainda não considera Bardella preparado para liderar o partido rumo ao poder. Para a cientista política Marta Lorimer, da Universidade de Cardiff e pesquisadora visitante da London School of Economics, a dirigente acredita que continua sendo a principal aposta eleitoral do Reagrupamento Nacional.

Avaliação semelhante faz o historiador Jean-Yves Camus, especialista em movimentos de extrema direita. Segundo ele, Le Pen aposta em pressionar o Judiciário porque entende que seus adversários políticos a consideram uma concorrente mais forte do que Bardella.

A confirmação da candidatura provocou reações em diferentes setores da política francesa. O ex-primeiro-ministro Édouard Philippe cobrou explicações sobre a decisão de concorrer após a condenação. Outro ex-chefe de governo, Gabriel Attal, afirmou que a candidatura levanta um problema de natureza moral. Já o líder do Partido Socialista, Olivier Faure, declarou que Le Pen deveria pedir desculpas aos franceses e desistir da disputa.

A trajetória de Marine Le Pen transformou profundamente a antiga Frente Nacional. Desde que assumiu a liderança da legenda em 2011, substituindo o pai, Jean-Marie Le Pen, ela promoveu uma estratégia de reposicionamento político, alterou o nome do partido para Reagrupamento Nacional e chegou a expulsar o próprio fundador da sigla.

Ao longo dos anos, Le Pen suavizou parte de seu discurso, abandonando propostas como a retirada da França da União Europeia, o fim do euro e o encerramento da dupla cidadania. Também deixou de se posicionar contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo e passou a defender que o islamismo moderado pode conviver com os valores republicanos franceses.

Apesar dessas mudanças, manteve como pilares de sua plataforma o endurecimento das políticas migratórias e a chamada “prioridade nacional”, proposta que prevê preferência para cidadãos franceses no acesso a benefícios públicos.

Depois de perder para Emmanuel Macron nos segundos turnos das eleições de 2017 e 2022, Le Pen chega à corrida presidencial de 2027 em seu momento político mais favorável. O Reagrupamento Nacional tornou-se a maior força da Assembleia Nacional, ampliou sua presença eleitoral e fortaleceu sua situação financeira.

Caso seja eleita presidente, Le Pen afirmou que pretende indicar Jordan Bardella para o cargo de primeiro-ministro. O calendário eleitoral prevê o primeiro turno da eleição presidencial para 18 de abril de 2027, com eventual segundo turno marcado para 2 de maio.

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