Após mais de três meses de intensa pressão política e sucessivas denúncias envolvendo a evolução de seu patrimônio, Manuel Adorni deixou neste sábado (27) o governo do presidente Javier Milei. A saída encerra um dos episódios mais desgastantes da atual administração argentina, marcada por suspeitas de enriquecimento ilícito, investigações judiciais e crescente desgaste da imagem do governo.
A crise teve início em março, quando veio à tona que Betina Angeletti, esposa de Adorni, integrou uma viagem oficial da comitiva presidencial a Nova York, apesar de não exercer qualquer função pública. A revelação desencadeou uma série de questionamentos sobre despesas pessoais e aquisições patrimoniais incompatíveis com os rendimentos declarados pelo então integrante do alto escalão.
Entre os fatos investigados estão uma viagem de férias da família para Aruba, estimada entre US$ 14 mil e US$ 15 mil, além da compra de dois imóveis entre 2024 e 2025: uma casa registrada em nome da esposa em um condomínio a cerca de 80 quilômetros de Buenos Aires e um apartamento avaliado em US$ 230 mil no bairro de Caballito, na capital argentina.
Com o avanço das investigações, surgiram novos indícios que ampliaram as suspeitas sobre a origem dos recursos utilizados por Adorni. Um dos pontos apurados envolve a reforma de um dos imóveis adquiridos durante sua passagem pelo governo. Segundo a investigação, cerca de US$ 250 mil teriam sido pagos em dinheiro vivo e sem emissão de recibos, circunstância que passou a ser analisada pelas autoridades.
Outro episódio que ganhou destaque diz respeito à compra, em agosto do ano passado, de um monitor e dois projetores para videogame, avaliados em aproximadamente US$ 4.500. Os investigadores afirmam que a aquisição teria sido feita por meio da conta pessoal de Adorni, mas utilizando cartões de crédito de dois funcionários subordinados. Ele também é suspeito de ter recorrido a outro servidor para efetuar o pagamento de cerca de US$ 6.800 referentes à compra de camas e roupas de cama, ampliando a lista de despesas sob investigação.
O avanço das apurações aumentou a pressão política. Pesquisa do Centro de Estudos de Opinião Pública (Ceop) apontou que 78% dos argentinos defendiam sua saída, enquanto aliados passaram a cobrar esclarecimentos para evitar que o governo Milei fosse associado aos mesmos escândalos de corrupção que prometeu combater durante a campanha eleitoral.
Mesmo diante do desgaste, Javier Milei manteve apoio público ao auxiliar durante toda a crise. O presidente acompanhou Adorni ao Congresso em uma sessão na qual ele precisou responder a parlamentares sobre as suspeitas de enriquecimento ilícito e reiterou diversas vezes sua confiança no então colaborador.
Na tentativa de reduzir sua exposição, Adorni já havia deixado a função de porta-voz do governo em 19 de junho. Conhecido pelas respostas diretas e frequentemente ríspidas à imprensa, despediu-se por meio de uma longa carta na qual afirmou sair com a consciência tranquila e atribuiu sua decisão ao impacto que a intensa exposição pública vinha causando à sua família.
Na mensagem, revelou ainda que Javier Milei resistiu inicialmente à sua saída, mas acabou aceitando a renúncia. Logo após o anúncio, Karina Milei, secretária-geral da Presidência e irmã do presidente, manifestou apoio ao agora ex-integrante do governo e classificou como injustas as circunstâncias enfrentadas por ele.
A saída de Adorni representa mais um duro golpe para o governo Milei. Eleito com o discurso de romper com a chamada “casta política” e combater privilégios e corrupção, o presidente argentino vê sua administração mergulhar em um escândalo que coloca em xeque justamente a principal bandeira que o levou ao poder.




