Há poucas semanas, um vídeo simples viralizou nas redes: uma mulher de quase 60 anos aparece primeiro vestida de forma discreta, com roupas neutras e comportadas, a imagem que, segundo ela, as pessoas esperam ver. Em seguida, aparece com um vestido colorido e mais curto, do jeito que realmente gosta de se vestir. A legenda pergunta, sem rodeios, como esperam que ela se apresente àquela altura da vida. O vídeo passou de cinco milhões de visualizações e escancarou algo que muita mulher já sentia no corpo, mas raramente via nomeado em voz alta.
Não é sobre roupa. É sobre licença.
Envelhecer, para os homens, costuma ser tratado como acúmulo: de experiência, de autoridade, de peso social. Para as mulheres, o relógio funciona ao contrário, cada ano que passa é lido como uma subtração, algo que precisa ser disfarçado, compensado ou, na falta de opção melhor, aceito com resignação silenciosa. E dentro dessa lógica perversa, existe um manual não escrito sobre o que uma mulher “de certa idade” pode ou não vestir, dizer, sentir e desejar. Cor demais é tentativa desesperada de parecer jovem. Decote é deselegante. Salto alto é implorar atenção que já não seria “adequada”. A mulher que envelhece bem, nesse imaginário, é aquela que desaparece com discrição.
O curioso é que ninguém redigiu essas regras formalmente. Elas não estão em lugar nenhum e estão em todo lugar. Foram internalizadas antes mesmo de serem questionadas, entre olhares reprovadores em festas de família, comentários de “não é mais idade para isso” e uma publicidade que só reconhece corpos maduros quando eles vêm suavizados, corrigidos, quase pedindo desculpas por continuarem existindo. A vigilância estética feminina começa cedo e nunca tira férias, apenas muda de forma. Na juventude, cobra-se magreza e beleza. Na maturidade, cobra-se contenção.
Do ponto de vista psíquico, isso tem um nome e um custo. Chama-se olhar internalizado: o momento em que a vigilância externa deixa de precisar de alguém de fora para funcionar, porque a própria mulher passa a ser sua fiscal mais rigorosa. Ela se olha no espelho e já antecipa o julgamento antes que ele exista. Escolhe uma roupa e se pergunta se está “apropriada para a idade” antes de perguntar se gosta dela. Esse mecanismo tem uma função defensiva, evitar a humilhação de ser julgada, mas o preço é alto: a pessoa deixa de habitar o próprio corpo como espaço de desejo e passa a administrá-lo como um problema de relações públicas.
Há também uma dimensão mais dolorosa por trás da cobrança estética: a ideia de que a mulher madura perde relevância quando deixa de ser objeto de desejo segundo os padrões vigentes. Como se identidade e valor social dependessem inteiramente de continuar “passando” pelo teste da juventude. Quando isso é internalizado, envelhecer deixa de ser apenas uma transformação biológica e vira uma espécie de luto contínuo, cada linha nova, cada fio branco, é sentido como perda, nunca como marca de uma vida vivida.
O motivo pelo qual aquele vídeo tocou tanta gente não foi a roupa em si. Foi o gesto de recusa. A mulher que aparece nele não está pedindo permissão, está mostrando o contraste entre o que os outros esperam e o que ela escolhe, e isso, por mais simples que pareça, é um ato de reapropriação. Envelhecer com identidade preservada, e não apagada, é hoje um gesto quase político, porque desafia diretamente um sistema que lucra quando mulheres tentam desesperadamente parecer mais jovens e pune quando elas simplesmente decidem seguir sendo quem são.
Não existe uma forma correta de ter 60 anos. Existe apenas a forma que cada mulher escolhe para si, quando finalmente se permite parar de perguntar aos outros o que é permitido.
Severino Angelino é Psicanalista, Bel. em Direito, Escritor e Graduando em Fonoaudiologia. Autor de ‘O Abismo Invisível: Depressão’ – Um olhar sobre a depressão na adolescência e a importância do apoio familiar.
*Este texto reflete a visão pessoal do autor.




