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Flávio Bolsonaro manteve contato frequente com Vorcaro antes da prisão, revela perícia da PF

Celular do ex-dono do Banco Master registra três meses de conversas, menções a seis encontros, cobranças por dinheiro para filme sobre Jair Bolsonaro e tentativas de contato nos quatro dias que antecederam a prisão do banqueiro

A relação entre o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, aparece mais extensa nos registros apreendidos pela Polícia Federal do que havia sido revelado inicialmente. A perícia realizada no celular do banqueiro recuperou cerca de três meses de conversas entre os dois, com referências a encontros, negociações financeiras e contatos que continuaram até a véspera da prisão de Vorcaro.

Segundo informações obtidas pelo Estadão e posteriormente confirmadas por outros veículos, os investigadores encontraram mensagens trocadas entre 20 de agosto e 16 de novembro de 2025. O telefone de Vorcaro estava configurado para apagar automaticamente mensagens depois de 90 dias, o que impediu a recuperação de parte do histórico. A PF identificou, entretanto, referências a seis encontros entre Flávio e o banqueiro, embora não seja possível afirmar que todos tenham efetivamente ocorrido.

A investigação já havia apontado que o contato entre os dois começara antes desse período, em dezembro de 2024.

Negociação de recursos para “Dark Horse”

Parte importante das conversas está relacionada ao financiamento do filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro.

Documentos da PF e da Procuradoria-Geral da República indicam que Flávio atuava como interlocutor direto de Vorcaro nas negociações envolvendo recursos para a produção. O senador aparece tratando de pagamentos, cobrando repasses e acompanhando questões relacionadas ao filme.

O projeto tinha previsão de receber cerca de US$ 24 milhões, valor equivalente a aproximadamente R$ 134 milhões na cotação considerada à época. Desse montante, segundo os documentos e reportagens baseadas na investigação, aproximadamente R$ 60 milhões foram efetivamente repassados.

Em setembro de 2025, Flávio chegou a cobrar diretamente Vorcaro sobre os pagamentos. Em uma mensagem de áudio, demonstrou preocupação com compromissos financeiros da produção. Vorcaro respondeu que providenciaria os recursos e os dois conversaram posteriormente por telefone. O conteúdo da ligação, de pouco mais de dois minutos, não foi recuperado pela PF.

A investigação também identificou movimentações envolvendo o fundo americano Havengate, utilizado na estrutura financeira relacionada ao filme. Entre as operações examinadas estão transferências milionárias feitas por empresas ligadas a Vorcaro.

Além dos recursos inicialmente identificados, documentos analisados na investigação apontaram posteriormente um repasse adicional de US$ 1,6 milhão para fundo relacionado à produção.

Seis encontros aparecem no celular

A extração do telefone acrescentou uma dimensão importante à relação entre os dois.

As mensagens recuperadas registram diferentes tentativas de marcar reuniões ao longo de agosto, setembro e outubro de 2025. Em determinado momento, Flávio aparece confirmando um encontro; em outros, Vorcaro propõe datas e horários ou tenta remarcar compromissos.

Os registros, contudo, não permitem afirmar que todas as seis reuniões mencionadas tenham ocorrido presencialmente. O que está documentado é a existência das tratativas e das referências a esses encontros.

A sequência reforça que a comunicação entre o senador e o banqueiro não se restringia a contatos ocasionais relacionados ao filme.

Os quatro dias antes da prisão

Um dos pontos que mais chamaram a atenção na nova extração realizada pela PF é a frequência dos contatos nos dias imediatamente anteriores à prisão de Vorcaro.

Entre 13 e 16 de novembro de 2025, Flávio tentou falar com o banqueiro diariamente.

No dia 13, enviou mensagem perguntando se Vorcaro poderia atender. No dia seguinte, fez uma ligação que não foi atendida. Nos dias seguintes, novas tentativas foram registradas.

Em uma das conversas, Vorcaro informou que estava em trânsito. Em outra, disse que estava na igreja e que retornaria posteriormente.

No dia 16, Flávio escreveu uma mensagem na qual afirmou que estaria ao lado do banqueiro e pediu que ele lhe desse “uma luz”.

No dia seguinte, 17 de novembro, Vorcaro foi preso pela Polícia Federal no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, quando tentava deixar o país.

Dubai e a aproximação com Eduardo Bolsonaro

As mensagens também registram uma tentativa de aproximar o círculo de Vorcaro de Eduardo Bolsonaro.

Em outubro de 2025, Vorcaro perguntou a Flávio se ele iria a Dubai. Naquele período, o banqueiro buscava alternativas para o Banco Master depois de o Banco Central rejeitar, em setembro, a operação de aquisição da instituição pelo BRB.

Flávio respondeu que não iria e mencionou a possibilidade de Eduardo participar de uma eventual agenda.

Segundo as informações divulgadas sobre a investigação, não foi localizada conversa direta entre Eduardo Bolsonaro e Vorcaro. Há, porém, mensagens de terceiros e referências à possível participação de Eduardo em tratativas relacionadas ao filme e aos recursos movimentados nos Estados Unidos.

Eduardo afirmou que nunca encontrou Vorcaro nem conversou com ele por WhatsApp.

A estrutura financeira do filme

As investigações também examinam o caminho percorrido pelo dinheiro destinado a “Dark Horse”.

Entre as empresas e estruturas financeiras analisadas aparece a Entre Investimentos, ligada a Vorcaro, e o fundo americano Havengate.

Uma das operações identificadas foi uma transferência de aproximadamente US$ 2 milhões, seguida de outros repasses milionários. A PF passou a verificar a destinação desses recursos e se houve utilização de parte do dinheiro em despesas que não estariam diretamente relacionadas à produção cinematográfica.

O jatinho ligado a Vorcaro

Outro elemento que aproximou ainda mais os dois nomes veio à tona em setembro.

Reportagem da revista Piauí apontou que Flávio Bolsonaro utilizou, em janeiro de 2025, um Legacy 650 operado pela Prime You, empresa que teve Vorcaro entre seus sócios.

Flávio viajou de Fort Lauderdale, nos Estados Unidos, para Brasília acompanhado da mulher e das duas filhas. O empresário e advogado Willer Tomaz também estava no voo.

O episódio ganhou repercussão porque a mesma aeronave posteriormente esteve associada a uma viagem do ministro Alexandre de Moraes.

Flávio afirmou que, na época, o avião estava ligado a Willer Tomaz, um advogado investigado por lavagem de dinheiro no escândalo do INSS.

A mudança na versão de Flávio

A evolução das declarações públicas do senador também passou a ser examinada.

Inicialmente, Flávio negou ter uma relação próxima com Vorcaro. Com o surgimento das mensagens e de outros documentos, reconheceu que conhecia o banqueiro e que havia conversado com ele sobre o financiamento de “Dark Horse”.

Posteriormente, admitiu inclusive ter visitado Vorcaro depois de uma de suas prisões.

Os documentos divulgados agora acrescentam um volume maior de contatos entre os dois e mostram que a comunicação se estendeu por meses.

Flávio é investigado pela PF

Flávio Bolsonaro está formalmente no centro de uma investigação da Polícia Federal relacionada à sua atuação na captação de recursos para “Dark Horse”.

Os documentos obtidos pela investigação apontam que ele fazia a interlocução direta com Vorcaro em relação ao financiamento do filme.

A investigação busca justamente esclarecer a origem, a movimentação e a finalidade dos recursos e o papel de cada pessoa envolvida.

O que os novos documentos acrescentam

O conjunto de informações conhecido até agora permite reconstruir uma relação que envolvia diferentes frentes:

  • contato direto entre Flávio e Vorcaro;
  • meses de conversas recuperadas pela PF;
  • referências a seis possíveis encontros;
  • negociações para financiar “Dark Horse”;
  • cobranças de Flávio por pagamentos;
  • repasses de dezenas de milhões de reais para estruturas ligadas ao filme;
  • movimentações envolvendo o fundo Havengate;
  • referências a possível participação de Eduardo Bolsonaro;
  • viagem de Flávio em aeronave ligada a empresa que teve Vorcaro entre os sócios;
  • contatos de Flávio em todos os quatro dias anteriores à prisão do banqueiro.

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