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Amor de vitrine: o perigo de comparar sua relação real com o casal perfeito do Instagram

Por Severino Angelino – Psicanalista

São onze da noite. A louça continua na pia, a discussão sobre quem ia lavá-la deixou a casa num silêncio cansado, e você se joga no sofá com o celular na mão. Rola a tela. Um casal sorri numa praia de água transparente, ele com a mão na cintura dela, e a legenda parece uma carta: “Obrigado por ser meu lugar de paz”. Você olha para o lado, olha de volta para a tela e algo aperta no peito. Fica a suspeita de que todo mundo deu certo, menos você.

Se isso já aconteceu com você, não houve ingratidão nem defeito no seu jeito de amar. Houve um mecanismo psíquico bastante conhecido na clínica, a idealização. Quando olhamos para o casal da tela, depositamos nele tudo o que nos falta em casa: leveza, desejo, assunto. Ele passa a representar a relação que “deveria” ser a nossa, e a nossa, por contraste, parece um erro.

Uma vitrine existe para fazer desejar. Escolhe a melhor peça, acerta a luz e deixa de fora a etiqueta, o estoque e o chão sujo atrás do vidro. A viagem existe, o beijo existe, o sorriso também. O que fica fora do enquadramento é o resto, aquilo que sobra e não cabe na foto: o cansaço, o mau humor, o dia sem assunto. Ninguém posta o silêncio do carro na volta de um almoço de família, nem a conversa difícil sobre dinheiro que terminou às duas da manhã. Essas cenas também fazem parte do amor, só que não rendem curtidas, e por isso ficam de fora.

Reprodução Magnific

O pacto inconsciente está aí. Aceitamos que o recorte resume a vida inteira de quem o publicou e, a partir disso, a conta fica injusta. Colocamos lado a lado o melhor minuto do outro e o nosso pior dia. Ao supor que o casal da tela vive um romance perfeito, passamos a exigir do nosso parceiro uma performance, e não uma relação. O silêncio dele no jantar vira desinteresse, o cansaço dela vira falta de amor, e uma discussão sobre louça passa a parecer sintoma de que tudo acabou.

Há um detalhe que quase ninguém comenta. A felicidade exibida é um recorte, e muitas vezes um recorte defensivo. Tem casal que posta muito porque precisa do olhar alheio para confirmar o que não consegue sentir a sós. A foto vira prova: se os outros acreditam, talvez seja verdade. O casal que você inveja pode estar, naquela mesma noite, olhando a vitrine de outro casal. Todo mundo olha para todo mundo, e quase ninguém olha para a própria casa.

O amor real tem corpo, silêncio, negociação e imperfeição. Dá trabalho. O amor de vitrine é um produto editado, sem o resto. Quando tentamos encaixar a rotina espontânea nos filtros do Instagram, rejeitamos justamente o que dá densidade ao vínculo: a possibilidade de suportar e acolher a falta e a falha do outro.

Reprodução Magnific

Falta é uma palavra que assusta, mas a psicanálise a trata sem alarme. Nenhuma pessoa preenche tudo em outra, e nenhuma relação entrega o tempo todo o que prometeu no começo. Essa lacuna não é prova de fracasso. É o que mantém o desejo em movimento, e reconhecê-la costuma trazer um alívio que nenhuma foto de praia trouxe. Quem aceita que o outro falha, e que ele próprio também falha, para de cobrar do parceiro o que nenhum ser humano pode dar.

Talvez o casal mais bem resolvido seja aquele que consegue rir da pia cheia sem precisar de plateia. E talvez a pergunta que valha levar para a cama hoje seja esta: o que, exatamente, eu estava esperando encontrar do outro lado do vidro?

Severino Angelino é Psicanalista, Bel. em Direito, Escritor e Graduando em Fonoaudiologia. Autor de ‘O Abismo Invisível: Depressão’ – Um olhar sobre a depressão na adolescência e a importância do apoio familiar.

*Este texto reflete a visão pessoal do autor.

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